Intuitivamente, álcool e trabalho são duas coisas que não combinam. O álcool é um depressor do sistema nervoso central e pode impactar o desempenho no trabalho de diversas formas, incluindo faltas, acidentes, discussões e brigas, demissões, entre outros tipos de perda de produtividade e renda. Contudo, a real dimensão do impacto do uso nocivo de álcool no trabalho e na economia vem sendo continuamente estudada, e novas pesquisas reiteram os perigos desta combinação1–3. Sabe-se que as taxas de consumo excessivo de álcool podem ser mais altas em alguns setores, como os de construção civil e o de artes e entretenimento, e entre alguns segmentos específicos, como trabalhadores prestes a se aposentar e aqueles mais jovens4 . Algumas pessoas também podem utilizar, de forma equivocada, o álcool como um recurso para lidar com o estresse no trabalho. Para contextualização, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) indica que de 20% a 25% dos acidentes de trabalho no mundo envolvem pessoas sob efeitos de algum tipo de droga, e que entre 3% a 5% da população de trabalhadores apresenta dependência de álcool e 25% são usuários de risco5.
O consumo de álcool no trabalho facilita a ocorrência de acidentes, provavelmente devido às alterações que provoca na diminuição de coordenação e equilíbrio, aumento de tempo de reação, alteração de julgamento, diminuição da acuidade visual e do campo visual, assim como da capacidade de concentração e raciocínio6.
Além destes aspectos diretos, o consumo de álcool afeta o trabalho através de aumento nas taxas de absenteísmo, que são faltas ou atrasos no trabalho sem uma justificativa prévia. Uma revisão da literatura recente aponta que bebedores pesados têm maior taxa de ausência no trabalho do que bebedores moderados. E estes, por sua vez, tinham maiores taxas do que pessoas que não consumiam álcool3. Um estudo norte-americano recente, analisando dados do levantamento nacional sobre drogas e saúde entre 2015 e 2019, mostrou que pessoas com transtornos relacionados ao uso de álcool nos Estados Unidos contribuíram, anualmente, para mais de 232 milhões de dias de absenteísmo de forma somada.
Outro estudo buscou analisar a relação entre álcool e absenteísmo em pesquisa com dados de 15 países, englobando 439 mil pessoas com vínculos empregatícios. O estudo relata que as pesquisas transversais[1] apontam um risco 8 vezes maior de absenteísmo em pessoas que fazem consumo de álcool em padrões de risco.
As pesquisas reforçam a necessidade de campanhas de informação, prevenção e tratamento de transtornos relacionados ao uso de álcool no ambiente de trabalho. Programas de prevenção e redução do uso nocivo de álcool no local de trabalho podem beneficiar o empregado, o empregador e a sociedade em geral. Alguns estudos mostram resultados promissores de programas focados em mudança de cultura no ambiente de trabalho, programas de promoção de saúde geral e intervenções breves4.
Finalmente, é importante frisar que o uso nocivo de álcool, além de piorar a performance no trabalho, pode tornar ainda mais difícil lidar com questões como estresse, pressão e ansiedade, tão comuns nos ambientes de trabalho contemporâneos. Por isso, se você sente que está usando o álcool para lidar com algum tipo de problema, procure ajuda especializada de um profissional de saúde. No caso do empregador, se notar que os funcionários têm feito uso nocivo de álcool, é importante pensar em programas que ofereçam informação e assistência para evitar os resultados negativos da associação entre álcool e trabalho.
[1] Pesquisas que são feitas em apenas um momento, representando uma “foto” dos aspectos estudados, em contraposição a estudos longitudinais, que fazem coleta de dados ao longo de vários períodos de tempo distintos.