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Transtornos relacionados ao uso de álcool

06 Julho 2009

Revisão científica publicada na revista ?The Lancet? traz uma atualização sobre os principais tópicos de relevância do tema ?Transtornos relacionados ao uso de álcool?

O abuso, uso problemático de álcool e dependência são os transtornos comumente relacionados ao consumo de álcool. Embora comuns, são potencialmente letais, pois podem mimetizar e exacerbar as condições psiquiátricas individuais pré-existentes, podendo diminuir, em até 10 anos, a expectativa de vida das pessoas afetadas.

Em termos epidemiológicos, os transtornos relacionados ao consumo de álcool têm sido mais prevalentes em países desenvolvidos e entre os homens. Porém, embora menores, são substanciais as prevalências desses transtornos em países em desenvolvimento.  

Os critérios do “Manual Estatístico e Mental de Transtornos Mentais” (4ª edição; DSM-IV) e “Classificação Internacional de Doenças” (10ª edição; CID-10) são os mais comumente empregados para o diagnóstico dos transtornos relacionados ao uso de álcool. Variados questionários de auto-preenchimento (tais como CAGE, MAST, AUDIT, FAST E TWEAK) e testes sanguíneos também têm sido empregados, em contexto clínico, com tais fins, mas não podem ser considerados como substitutos de uma cuidadosa entrevista clínica. Além disso, seja qual for o questionário ou teste utilizado, sua sensibilidade e especificidade variam conforme as características sócio-demográficas e as condições médicas dos pacientes (ex.: sobrepeso; diabetes; consumo de tabaco), de tal forma que seu emprego deve ser bem pensado.

Assim como a maioria dos transtornos médicos ou psiquiátricos, o curso clínico dos transtornos relacionados ao consumo de álcool são previsíveis (na ausência de transtornos psiquiátricos maiores como transtornos psicóticos, de humor e ansiedade). Dessa maneira, a idade usual para iniciar o uso de álcool são os 15 anos e o período de uso mais pesado é entre os 18 e 22 anos. Já o abuso e consequente dependência do uso de álcool frequentemente têm início nos meados dos vinte anos, em um período em que, à medida que o sujeito tem um aumento de suas responsabilidades, é de se esperar que haja uma moderação do comportamento de beber.

No Sistema Nervoso Central (SNC), o álcool provoca amnésias anterógradas (blackouts alcoólicos) assim como déficits cognitivos temporários, inclusive dificuldades de resolução de problemas, de abstração, de memória e aprendizado. O uso pesado de álcool afeta o sistema cardiovascular, aumentando a pressão arterial, o nível sanguíneo de colesterol do tipo LDL, o risco de desenvolvimento de arritmias e cardiomiopatia. A incidência de câncer é a segunda causa de morte precoce entre sujeitos com transtornos relacionados ao uso de álcool, possivelmente refletindo o efeito da substância no sistema imune, podendo, por tal motivo, exacerbar o curso de Hepatite C e complicar o tratamento medicamentoso para AIDS. O uso pesado de álcool também leva à incidência de gastrite hemorrágica, pancreatite e alterações hepáticas. Além disso, acidentes fatais e problemas em recém-nascidos também devem ser considerados como consequências graves decorrentes do uso pesado de álcool. Em linhas gerais, o uso continuado de álcool aumenta, em 3 a 4 vezes, a taxa de morte precoce e a mortalidade por álcool tem contribuído para 2 a 4% das mortes entre adultos.

Quanto ao tratamento, ao redor de 50 a 60% dos pacientes com dependência de álcool tornam-se abstinentes ou têm melhora substancial após 1 ano de tratamento. A maioria desses tratamentos busca, como meta, a abstinência e poucas abordagens favorecem o comportamento de beber controladamente.

Cerca de 50% dos pacientes dependentes de álcool desenvolvem sintomas clinicamente relevantes de abstinência, os quais geralmente representam um rebote dos efeitos usuais da intoxicação por álcool, tendo início cerca de 8 horas após a redução acentuada da concentração sanguínea de álcool. Esses sintomas podem persistir por meses e geram um quadro de ansiedade, insônia e disfunção autonômica, inclusive de elevações modestas de pressão arterial, pulso e taxa de respiração, assim como transpiração e tremores. Menos que 5% dos dependentes de álcool desenvolvem uma crise durante o período de abstinência ou um estado de confusão grave. Os dias e meses de sobriedade subsequentes aos primeiros dias de abstinência são seguidos por um comportamento de beber controlado e temporário, que carrega, em si, uma probabilidade aumentada para aumentar o uso, assim como um aumento dos problemas a ele associados. Em termos epidemiológicos, menos de 10% dos pacientes com dependência alcoólica desenvolvem longos períodos de uso não problemático.

Durante o tratamento o médico deve identificar os transtornos relacionados ao uso de álcool e dividir suas preocupações com os pacientes, conscientizando-lhes da situação e oferecendo sugestões sobre o que precisa ser feito para que haja uma modificação. Já a reabilitação deve manter a motivação alta e diminuir o risco de recaída. A abordagem cognitivo-comportamental é frequentemente utilizada para esse fim. A reabilitação pode ser oferecida em grupos em que os participantes são encorajados a falar sobre seus problemas relacionados ao uso de álcool, considerar como o álcool contribui para as dificuldades gerais da vida, desenvolver laços de amizades e de apoio com os companheiros de grupo, melhorar os relacionamentos sociais, lidar com o estresse, aproveitar ao máximo o trabalho, o tempo livre e, finalmente, evitar as recaídas. A intenção é fazer com que os pacientes reconheçam a situação de risco da recaída, ensinando-os a evitá-las e como reestabelecer a sobriedade caso retornem ao uso pesado. O programa dos alcoólicos anônimos é um exemplo desse tipo de reabilitação.

Embora o núcleo do tratamento seja motivacional, ou seja, através do emprego de entrevistas motivacionais, intervenções breves e abordagens cognitivo-comportamentais, muitos médicos confiam no uso de medicamentos. Entre eles, tem sido destacado o uso de naltrexona, acomprosato, dissulfiram e topiramato. Porém, seu uso é possibilitado apenas por prescrição médica e as condições médicas e de saúde geral dos pacientes devem ser detalhamente consideradas para que a medicação seja eficientemente adotada.

Na ausência de tratamento formal ou de programas de auto-ajuda, em termos epidemiológicos, apenas cerca de 20% a 30% dos pacientes apresentam remissão, a longo-prazo, dos problemas relacionados ao uso de álcool.

Additional Info

  • Autor(es): Schuckit MA.
  • Fator de impacto da revista: 28.638
  • D.O.I.: 10.1016/S0140-6736(09)60009-X
  • Título(s) original(is): Alcohol-use disorders
  • Fonte:

    Lancet, 373 (9662) : 492-501, 2009

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