Transtornos por Uso de Álcool na CID-11: Passado, Presente e Futuro

02 Março 2022
Na 11ª revisão da CID, OMS atualiza o diagnóstico de transtornos por uso de álcool

O que é a Classificação Internacional de Doenças?

A Classificação Internacional de Doenças (CID) é um compêndio de distúrbios humanos e condições de saúde relacionadas, atualizado periodicamente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A CID abrange informações sobre doenças, sinais, sintomas, achados anormais, circunstâncias sociais e causas externas. Seu objetivo é estabelecer definições e fornecer diretrizes para auxiliar no diagnóstico médico, além de fornecer base para o registro, compilação e análise de estatísticas de morbidade e mortalidade. Também auxilia na formação de profissionais da área da saúde e facilita a colaboração internacional entre pesquisadores.

Os diagnósticos da CID são frequentemente comparados com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, DSM) publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), que aborda exclusivamente transtornos mentais e comportamentais. O capítulo de saúde mental da décima revisão da CID (CID-10) foi desenvolvido em estreita colaboração com o DSM-IV, publicado em 1994, com atenção para que as entidades diagnósticas fossem comparáveis entre os dois.

A décima primeira revisão da CID (CID-11), que entrou em vigor no começo de 2022[1] traz algumas mudanças para os diagnósticos de transtornos por uso de álcool. Neste artigo, apresentamos o histórico dos diagnósticos de transtornos por uso de álcool e as mudanças específicas incorporadas na CID-11.

 

[1] É importante salientar que a tradução oficial para o português ainda não está finalizada. Por esse motivo, muitas instituições continuam utilizando a CID-10.

Histórico dos diagnósticos de transtornos por uso de álcool

Nas versões anteriores da CID e do DSM, os transtornos por uso de álcool eram definidos como distúrbios que incluíam consumo excessivo de álcool, compulsão por beber, abstinência e negação de problemas, tendo sido descritos até mesmo como um subtipo de transtorno de personalidade (1) (2). Na CID-9 e no DSM-III os diagnósticos de uso de substâncias foram separados dos transtornos de personalidade e a categoria diagnóstica de abuso de álcool sem dependência foi introduzido.

A “descrição provisória de uma síndrome clínica” de dependência de álcool publicada por Edwards e Gross (3) foi um marco fundamental que introduziu um modelo que separava a dependência de álcool das consequências prejudiciais do seu uso. Na OMS, outras entidades diagnósticas além da dependência também estavam sendo exploradas para definir padrões excessivos de uso de álcool:

  • Uso Nocivo, definido como o consumo que leva a danos físicos ou mentais;
  • Uso Disfuncional, definido como o consumo que leva a problemas sociais;
  • Uso Arriscado, cuja quantidade ou padrão de consumo confere riscos de danos futuros;
  • Uso Não Autorizado, consumo que causa a reprovação da sociedade.

 

Somente o Uso Nocivo foi incorporado à CID-10. A OMS também desenvolveu o modelo tridimensional, que incorpora dependência, dano e medidas de consumo (4), exemplificado pelo questionário do Teste de Identificação de Distúrbios do Uso de Álcool (AUDIT) (5).

Additional Info

  • Referências:

    1. American Psychiatric Association. The Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 2nd edn. Washington, DC; 1968.
    2. Saunders J, Latt N. Diagnosis and classification of substance use disorders. In: Addiction Medicine: Science and Practice. New York: Springer; 2011. p. 95–113.
    3. Edwards G, Gross MM. Alcohol dependence: Provisional description of a clinical syndrome. Br Med J. 1976;1(6017):1058–61.
    4. Stockwell T, Murphy D, Hodgson R. The Severity of Alcohol Dependence Questionnaire: Its Use, Reliability and Validity. Br J Addict. 1983;78(2):145–55.
    5. Saunders J, Aasland O, Babor T, De La Fuente J, Grant M. Development of the Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT). Addiction. 1993;88(6):791–804.
    6. Poznyak V, Reed GM, Medina-Mora ME. Aligning the ICD-11 classification of disorders due to substance use with global service needs. Epidemiol Psychiatr Sci. 2018;27(3):212–8.
    7. Koob GF, Volkow ND. Neurobiology of addiction: a neurocircuitry analysis. The Lancet Psychiatry. 2016;3(8):760–73.
    8. Griswold MG, Fullman N, Hawley C, Arian N, Zimsen SRM, Tymeson HD, et al. Alcohol use and burden for 195 countries and territories, 1990-2016: A systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. Lancet. 2018;392(10152):1015–35.
    9. Wood AM, Kaptoge S, Butterworth A, Nietert PJ, Warnakula S, Bolton T, et al. Risk thresholds for alcohol consumption: combined analysis of individual-participant data for 599 912 current drinkers in 83 prospective studies. Lancet. 2018;391(10129):1513–23.
    10. Üstün B, Compton W, Mager D, Babor T, Baiyewu O, Chatterji S, et al. WHO Study on the reliability and validity of the alcohol and drug use disorder instruments: Overview of methods and results. Drug Alcohol Depend. 1997;47(3):161–9.
    11. Lago L, Bruno R, Degenhardt L. Concordance of ICD-11 and DSM-5 definitions of alcohol and cannabis use disorders: a population survey. The Lancet Psychiatry [Internet]. 2016;3(7):673–84. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/S2215-0366(16)00088-2
    12. Lane SP, Steinley D, Sher KJ. Meta-analysis of DSM alcohol use disorder criteria severities: Structural consistency is only “skin deep.” Psychol Med. 2016;46(8):1769–84.

     

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