Entenda a definição deste conceito, que pode variar de um país para outro e deve considerar características individuais.

Enquanto a pandemia causada pelo novo coronavírus (COVID-19) leva a implicações sérias para a saúde, há a preocupação de que algumas pessoas podem estar consumindo mais bebidas alcoólicas. Afinal, de que modo o surto de COVID-19 impactará no uso de álcool?

Segundo Rehm e colaboradores, possíveis respostas podem ser buscadas a partir do impacto de outras crises recentes de saúde pública nos níveis e padrões de consumo de álcool. A partir de sua revisão1, identificaram duas hipóteses principais sobre repercussões da COVID-19 no uso de álcool. A primeira sugere que o aumento do sofrimento psicológico desencadeado pela interação de dificuldades financeiras, isolamento social e incerteza sobre o futuro, durante e após crises como a pandemia da COVID-19, pode piorar padrões de uso de álcool e aumentar danos atribuíveis. Algumas evidências da literatura sobre pandemias anteriores apoiam essa primeira hipótese. Por exemplo, um estudo chinês2 sobre a pandemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) em 2003, realizado com 800 moradores de Hong Kong, mostrou que 6,8% dos que consumiam álcool (4,7% dos homens e 14,8% das mulheres) relataram um aumento neste consumo um ano após a pandemia da SARS.

A outra hipótese examinada por Rehm e colaboradores diz respeito à disponibilidade física e financeira (acessibilidade) do álcool. Essa hipótese prevê reduções do consumo e dos problemas atribuíveis a ele, com base em evidências de pesquisas sobre políticas de controle do álcool. Como crises do porte da pandemia de COVID-19 são geralmente associadas ao desemprego e à redução das jornadas de trabalho, levando a diminuições da renda para grande parte da população, consequentemente haveria redução do consumo de álcool e dos problemas atribuíveis. 

As restrições de disponibilidade de bebidas alcoólicas na pandemia - ligadas a medidas como o fechamento de locais de consumo - também poderiam levar a reduções no nível de uso de álcool e danos atribuíveis. Em alguns países, não apenas o consumo no local foi restringido, mas foi implementada uma proibição total temporária da venda de bebidas alcoólicas, como na África do Sul. Lá, em 18 de março de 2020, como parte de sua Estratégia de Gerenciamento de Desastres COVID-19, o governo anunciou uma série de limitações na venda, distribuição e transporte de bebidas alcoólicas. O álcool não foi incluído na lista de bens e serviços essenciais que poderiam ser adquiridos durante o período de lockdown. A justificativa seria que o declínio esperado de acidentes e agressões, devido à proibição de compra do álcool, liberaria o espaço necessário nos hospitais durante a crise de coronavírus.

Após análise das duas hipóteses, os autores do estudo sugerem que o nível de consumo de álcool diminua no futuro imediato - mesmo que alguns governos apoiem os operadores econômicos, declarando que a venda de álcool é um negócio essencial e exigindo que os fornecedores permaneçam abertos em tempos de bloqueio, como já feito em muitos países. Porém, apesar desta diminuição do consumo no curto prazo, um “relaxamento” das medidas de controle do álcool e o sofrimento psicológico relacionado ao surto de COVID-19 poderão levar ao aumento do consumo de álcool e/ou à piora dos padrões a longo prazo.

No que diz respeito às consequências sociais, no curto prazo, a mudança do local de consumo de bebida - de bares e restaurantes para casa, pode diminuir acidentes de trânsito ligados ao álcool devido a menos viagens de e para locais de vendas de bebida. Por outro lado, a violência doméstica pode aumentar devido à relação mais forte entre o consumo fora do local de venda e incidentes violentos (potenciais aumentos de violência doméstica e outros tipos de violência também foram usados como a principal justificativa para proibições temporárias da venda de bebidas alcoólicas).

Os especialistas ressaltam que a situação atual é inédita em termos da dimensão do isolamento social. Portanto, embora as lições aprendidas em outras crises permitam fazer algumas previsões, é importante que qualquer aumento do consumo de álcool seja monitorado. Isso porque poderia incrementar tanto a carga usual de doenças associadas ao próprio álcool, quanto a carga relativa à COVID-19, já que o uso excessivo de álcool enfraquece o sistema imunológico. Esse monitoramento deve considerar não somente o nível de consumo, mas diferenças de gênero e de condição socioeconômica, pois os danos atribuíveis ao álcool diferem em função desses fatores.

Pesquisa online conduzida pela OPAS em 33 países da América Latina e Caribe avalia o que mudou nos hábitos de consumo de álcool com a pandemia.

À medida que a pandemia de COVID-19 se espalhou por todos os países da região das Américas, os governos ordenaram o fechamento obrigatório de todos os serviços e empresas não essenciais. Em alguns países, as bebidas alcoólicas foram consideradas bens essenciais, enquanto outros proibiram completamente sua venda. Como esperado, o consumo de álcool mudou do âmbito público (bares, festas, restaurantes, lojas de bebida) para o privado (residências). Além desta mudança importante, a intensificação dos sentimentos de ansiedade, medo, depressão, tédio e incerteza, ocasionados pela pandemia, pode ter afetado o consumo de álcool das pessoas.

Com o objetivo de estimar o impacto da pandemia no hábito de beber, pesquisa feita pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) incluiu 55 perguntas sobre dados demográficos, medidas de prevenção à COVID-19, impactos na saúde mental (nos últimos 14 dias), e consumo de álcool antes e durante a pandemia. Elas foram respondidas por 12.328 pessoas com 18 anos de idade ou mais, residentes dos 33 países da América Latina e Caribe, sendo o Brasil o país com maior número de respondentes (3.799, 30,8% do total). A OPAS destaca que a amostra da pesquisa não é representativa da população residente na região estudada, e constitui um limite ao alcance e generalização dos resultados da pesquisa.

Em todas as regiões, a prevalência de consumo de álcool foi maior em 2019 (75,8%) do que durante a pandemia (63,4%). O Cone Sul, sub-região em que se encontra o Brasil, registrou o maior índice de consumo de álcool antes e depois da pandemia: foi de 81,4% para 73,8%. No entanto, é importante notar que o período de cobertura da pesquisa sobre o ano de 2019 foi de 12 meses, enquanto para o ano de 2020, o período de cobertura restringiu-se aos primeiros 4 meses da pandemia (março a junho). Portanto, os dados de 2020 não refletem a prevalência anual de consumo, mas sim, a prevalência durante o período avaliado da pandemia. Feita esta observação, a pesquisa mostra também que o tipo de bebida mais consumida foi a cerveja, tanto antes (52,3%) quanto durante a pandemia (48,7%), seguida pelo vinho, cujo consumo aumentou de 21,8% em 2019 para 29,3% durante a pandemia em todas as regiões, e de 28,2% para 38,1% no Cone Sul.

Outra preocupação despertada durante a pandemia, por conta do fechamento de bares e lojas de bebida, foi com o aumento da venda e consumo de álcool ilegal. Os dados da pesquisa também mostraram que apesar do consumo de destilados e bebidas preparadas em casa ser maior em 2019 do que durante a pandemia, a frequência do consumo de álcool ilegal/informal aumentou durante a pandemia de 2,2% para 4,9% mensalmente; de 1,9% para 3,0% semanalmente e 0,4% para 0,6% diariamente.

No que diz respeito ao Beber Pesado Episódico (BPE), definido como o consumo de 60 g ou mais de álcool puro em pelo menos 1 ocasião no último mês, 11,2% dos participantes relataram um aumento em sua frequência, 27,1% relataram diminuição e 61,6% não relataram mudança na frequência durante a pandemia. Dentre aqueles que aumentaram sua frequência de BPE, a maior parcela esteve situada no Cone Sul (15%) e o índice dos homens foi maior do que o das mulheres em todas as sub-regiões. As pessoas mais jovens (18-39 anos) destacaram-se como as que mais praticaram BPE tanto em 2019 como durante a pandemia, sendo que 35% daqueles com idade entre 30 e 39 anos foram as que mais relataram aumentar a frequência de BPE, ao passo que aqueles com 18 a 29 anos foram os que mais diminuíram a frequência deste comportamento (40,8%). Apesar dos altos índices de BPE, a procura por ajuda tanto em 2019 como durante a pandemia foi muito baixa (0,4% e 0,3%) entre os que reportaram a prática. Uma pequena parcela tentou reduzir seu próprio consumo de álcool sozinho, sendo 10,2% em 2019 e 7,4% durante a pandemia.

A pandemia COVID-19 também teve muitos impactos na saúde mental da população. É normal e compreensível que os indivíduos fiquem mais propensos a sentir medo, preocupações, estresse, nervosismo, ansiedade e inquietação quando se deparam com a incerteza típica de crises como esta. A pesquisa mostrou que 52,8% dos respondentes relataram ao menos 1 sintoma emocional, sendo mais frequente entre mulheres. No geral, 36% da amostra total apresentou de 1 a 4 sintomas/sentimentos emocionais com frequência (quase todos os dias). A pesquisa também demonstrou associação entre o relato desses sentimentos e o consumo de álcool: aqueles que reportaram maior número de sintomas emocionais também apresentaram maior prevalência de consumo de álcool e de BPE durante a pandemia. O BPE também foi mais frequente entre as pessoas com maior renda familiar.

Apesar da frequência aumentada de sintomas emocionais durante a pandemia, a pesquisa aponta que o BPE não se alterou de forma significativa nesse período. De todo modo, na medida em que representa um grande risco à saúde, passível de agravar os problemas relativos à COVID-19 e associado a sintomas emocionais, a OPAS endossa a importância de medidas restritivas à disponibilidade e acesso ao álcool, intervenções para melhorar a saúde mental das pessoas, e informações qualificadas sobre álcool e COVID-19 que se estendam ao período pós-pandemia.

Para saber mais sobre o consumo de álcool durante a pandemia, veja também outros textos do nosso site:

https://cisa.org.br/index.php/pesquisa/artigos-cientificos/artigo/item/250-convid-pesquisa-de-comportamentos-da-fiocruz

https://cisa.org.br/index.php/sua-saude/informativos/artigo/item/245-alcool-e-covid-19-o-que-voce-precisa-saber-segundo-oms

https://cisa.org.br/index.php/sua-saude/informativos/artigo/item/253-por-que-controlar-consumo-de-alcool-durante-quarentena

 

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