English Version

Existem medicamentos para o tratamento do alcoolismo?

14 Julho 2022

 

Além das intervenções psicossociais que desempenham um papel importante no tratamento do alcoolismo, conheça os principais medicamentos que também auxiliam neste tratamento.

O uso nocivo de álcool afeta mais de 2 bilhões de pessoas e é responsável por quase 6% de todas as mortes no mundo1. Semelhante a outras doenças multifatoriais crônicas, a fisiopatologia do alcoolismo é aproximadamente 50% hereditária e 50% secundária a fatores ambientais1. Contudo, apesar destas informações alarmantes, é importante ressaltar que o alcoolismo é uma condição evitável e tratável.

 

Tratamento farmacológico para o alcoolismo

 

Além das intervenções psicossociais, como a psicoterapia individual e em grupo, por exemplo, que desempenham um papel extremamente importante no tratamento da dependência do álcool, existem medicamentos que também podem auxiliar neste tratamento. Essas medicações ajudam a regular as substâncias químicas no cérebro responsáveis por aumentar a vontade de beber, além de reduzir a ansiedade ou aliviar os sintomas de abstinência quando se para de beber, como tremores, fraqueza ou alucinações.

 Atualmente, este tratamento é realizado com base em três fármacos principais: o dissulfiram, a naltrexona e o acamprosato2, que são, nos Estados Unidos, aprovados pelo Food and Drug Administration, FDA.

                                                                                                                  

Dissulfiram

O dissulfiram3,4 é uns dos primeiros medicamentos aprovados pela FDA para o tratamento do alcoolismo. Trata-se   de um   inibidor das enzimas   que   decompõem   o   álcool em acetaldeído. A inibição da enzima acetaldeído-desidrogenase provoca um acúmulo de acetaldeído no organismo, levando à reação etanol-dissulfiram, caracterizada por fortes náuseas, vômitos ou até convulsões. Ou seja, essa medicação busca fazer com que o indivíduo crie uma aversão à bebida alcoólica devido aos efeitos colaterais, ou seja, produz reações tóxicas quando o medicamento é ingerido logo após o consumo de álcool4.

 

Naltrexona

A   naltrexona3,4 é um medicamento utilizado como coadjuvante das intervenções psicossociais no tratamento do alcoolismo. Ela atua farmacologicamente como um antagonista nos receptores opióides, reduzindo os efeitos prazerosos do álcool, os desejos e sentimentos de euforia associados ao uso de substâncias alcoólicas. O álcool estimula indiretamente a atividade dos opióides endógenos ao promover a liberação dos peptídeos endógenos (encefalinas e beta-endorfinas). Através da atividade excitatória destes peptídeos, as sensações prazerosas do álcool seriam mediadas pela estimulação dopaminérgica dos neurônios em uma região do cérebro denominada núcleo accumbens.

Um outro mecanismo da naltrexona é a atividade   inibitória dos peptídeos   endógenos   sobre os interneurônios gabaérgicos, localizados numa área do cérebro chamada área tegmental ventral. Tais interneurônios exercem efeitos inibitórios sobre os neurônios dopaminérgicos. Assim, o uso de antagonistas opióides como a naltrexona, reduz o consumo de álcool através do bloqueio pós-sináptico destes receptores nas vias mesolímbicas.

Alguns estudos relatam dois tipos de resposta ao tratamento do alcoolismo de acordo com os o tipo de usuário: “bebedores de alívio” e “bebedor de recompensa”5. Os “bebedores de alívio” são caracterizados pelo consumo de álcool ser mantido para aliviar os estados afetivos negativos, como a angústia. Já o “bebedor de recompensa” utiliza o álcool por seus efeitos positivos e recompensadores, destacando indivíduos que gostam e desejam excessivamente o álcool, em particular as sensações descritas como “prazerosas” relacionadas a estar sob o efeito do álcool.

Para o usuário “bebedor de recompensa”, alguns pesquisadores mostraram que este perfil responde melhor o tratamento com naltrexona5. Em adultos jovens, por exemplo, um estudo mostrou que pacientes com alto nível de mecanismos de recompensa e alívio obtiveram melhores respostas com o tratamento, quando comparado ao placebo6,7.

Conheça mais sobre a atuação da naltrexona em Como a naltrexona atua no tratamento da dependência de álcool?

 

Acamprosato

O acamprosato3,4 também tem se mostrado eficaz no tratamento da dependência de álcool. Ele inibe a atividade excitatória do glutamato no cérebro, agindo, provavelmente, em uma subclasse dos receptores glutamatérgicos (NMDA), especialmente quando há hiperatividade destes receptores. O acamprosato tem sido considerado um coagonista parcial do receptor NMDA. Estudos em animais indicaram que esta medicação reduz a recaptação do cálcio induzida pelo glutamato nos neurônios, suprimindo as respostas condicionadas ao etanol, reduzindo os efeitos aversivos da retirada do álcool além de inibir a hiperexcitabilidade cerebral do glutamato e a expressão gênica do c-fos (um gene de ação ativadora)4. Também há estudos que descrevem uma atividade sobre o sistema gabaérgico. O acamprosato melhora a recaptação do GABA no tálamo e hipotálamo. Desta forma, parece modular a atividade dopaminérgica no núcleo accumbens, reduzindo o reforço positivo relacionado ao consumo de álcool4.

É importante reforçar que o tratamento do alcoolismo não ocorre de maneira isolada. O resultado de um tratamento farmacológico também depende da abordagem psicoterápica como a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC)2. Além disso, o tratamento farmacológico do alcoolismo sempre passa por atualizações e que existem possibilidades de combinações de outras classes de medicamentos, visando tratar possíveis comorbidades.

Essas medicações devem sempre ser usadas com indicação e orientação de um psiquiatra. O tipo de tratamento mais adequado para cada pessoa depende de suas características pessoais, da quantidade de bebida alcoólica que costuma ingerir e se já apresenta problemas de ordem emocional, física ou interpessoal decorrentes desse uso.          

Veja também Tratamento para o uso abusivo de álcool

  

 

Additional Info

  • Referências:
    1. Fairbanks, Jeremiah, et al. "Evidence-based pharmacotherapies for alcohol use disorder: clinical pearls." Mayo Clinic Proceedings. Vol. 95. No. 9. Elsevier, 2020.
    2. Carvalho, Cainã Salmon Lima, Guilherme Soares Carvalho, and Nadine Cunha Costa. "Avanços no tratamento farmacológico do alcoolismo: revisão integrativa." Brazilian Journal of Development 7.1 (2021): 11271-11283.
    3. Santos, Samuel Mororó Pereira, and Leonardo Guimarães de Andrade. "FÁRMACOS PARA O TRATAMENTO DO ALCOOLISMO." Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação 8.3 (2022): 558-567
    4. Castro, Luís André, and Danilo Antonio Baltieri. "Tratamento farmacológico da dependência do álcool." Brazilian Journal of Psychiatry 26 (2004): 43-46.
    5. Mann, Karl, et al. "Precision medicine in alcohol dependence: a controlled trial testing pharmacotherapy response among reward and relief drinking phenotypes." Neuropsychopharmacology 43.4 (2018): 891-899.
    6. Roos CR, Bold KW, Witkiewitz K, Leeman RF, DeMartini KS, Fucito LM, et al. Reward drinking and naltrexone treatment response among young adult heavy drinkers. Addiction. 2021
    7. Roos, Corey R., Karl Mann, and Katie Witkiewitz. "Reward and relief dimensions of temptation to drink: construct validity and role in predicting differential benefit from acamprosate and naltrexone." Addiction biology 22.6 (2017): 1528-1539.

     

Rua do Rócio, 423 Salas 1208/1209
São Paulo - SP - 04552-000

Tel: +55 11 3842-3388 / Cel: +55 11 91257-6108

Dúvidas: contato@cisa.org.br
Parcerias: parcerias@cisa.org.br

Assine o nosso Boletim

CISA, Centro de Informações sobre Saúde e Álcool