Como o álcool interfere na saúde do seu coração?

1 julho, 2021

Confira entrevista com o Dr. Martino Martinelli Filho

 

A publicação "Álcool e a Saúde dos Brasileiros - Panorama 2021" traz, além dos dados mais recentes sobre o impacto do uso de álcool na saúde da população do Brasil, uma seção sobre coração e álcool. 

Para obter mais informações, tiramos algumas dúvidas com o cardiologista Martino Martinelli Filho acerca da saúde do coração e como ela é impactada pelo consumo de álcool.

 

  1. Como o consumo de álcool afeta o coração?

 

Vários estudos (experimentais ou em humanos) demonstraram que consumo de álcool (ou etanol) em quantidades excessivas provoca, por ação direta, enfraquecimento do músculo cardíaco, levando a uma doença grave denominada cardiomiopatia alcoólica (CMA). Esta cursa com insuficiência cardíaca (falta de ar, fraqueza, cansaço e inchaço no corpo) alem de arritmias cardíacas (palpitações, tonturas desmaios) que juntas são responsáveis por taxa de cerca de 10% de mortalidade anual.

Além disso, indiretamente, o álcool pode atuar como fator de risco adicional para Infarto Agudo do Miocárdio e Hipertensão Arterial (ao lado de diabetes, colesterol elevado e outros).

É preciso reforçar que esses comprometimentos estão associados ao tipo de consumo de álcool:

1-consumo moderado, correspondente a 2 doses diárias para homens e 1 dose para mulheres é considerado saudável, protetor ou não-nocivo para o coração;

 2-consumo pesado, correspondente à ingestão diária superior ao moderado ou do tipo binge (Beber Pesado Episódico), correspondente a 4 doses ou mais ingeridas na mesma ocasião, considerado nocivo.  

 

Lembrando que cada dose tem 14g de etanol, correspondente a 350 mL de cerveja, 150 mL de vinho ou 45 mL de destilados

 

  1. Quem tem problema no coração pode consumir bebida alcoólica?

 

Não existem publicações a esse respeito incluindo somente cardiopatas. Nós estamos realizando um estudo em larga escala (4.000 pacientes), comparando cardiopatas com não-cardiopatas, no Instituto do Coração (HCFMUSP). Estamos avaliando perfil psicossocial, desempenho físico, evolução antropométrica, comorbidades e arritmias cardíacas, relacionadas à quantidade e tipo de medida.

Com isso, vamos responder esse questionamento de modo mais robusto. Já identificamos, num sub-estudo recentemente concluído, que, para cardiopatas, o consumo correspondente à metade do consumo moderado preconizado para a população geral, reduz significativamente o risco da arritmia cardíaca fibrilação atrial (causadora de derrames e embolia arterial periférica).

 

  1. De acordo com as análises do CISA a partir de dados do Datasus, no Brasil, doença cardíaca hipertensiva e doença cardíaca isquêmica são, conjuntamente, responsáveis por mais de 10% dos óbitos atribuíveis ao álcool em 2018. A que podemos atribuir esses números e o que deve ser feito em termos de prevenção para reduzi-los?

 

É preciso entender que esses achados vieram de associações de variáveis obtidas de estudos realizados na população geral; não há relação de causalidade e existem vários fatores confundidores.

Para os pacientes com acometimentos graves (cardiomiopatia alcoólica), a abstenção total de álcool é o objetivo preferido, embora  alguns estudos demonstrem que consumo moderado ainda permite melhorias; consumo binge deve ser absolutamente desencorajado.

Uma vez que o consumo de etanol da população global não está sob controle, a incidência desses acometimentos tende a ser mantida ou elevada nos próximos anos.

Por isso, deve-se redobrar os esforços para detecção precoce e tratamento específico de fatores de risco de doenças cardíacas. A prevenção tem que ser focada em sério trabalho de conscientização sobre consumo de álcool, sobretudo em grupos populacionais de adolescentes e jovens. 

Additional Info

  • Fonte:

    Possui graduação em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos/-Fundação Lusíada/SP (1976), residência e doutorado em Cardiologia pela Universidade de São Paulo (1992).

    Atualmente é Professor Livre-Docente pela FMUSP, Professor Colaborador Médico da Universidade de São Paulo, diretor de Unidade Clínica do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP, membro do Heart Rhythm Society, colaborador da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), fundador da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas da SBC. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Cardiologia, atuando principalmente nos seguintes temas: arritmias cardíacas, estimulação cardíaca (marcapasso, cardioversor-desfibrilador implantável e ressincronizador), Doença de Chagas e álcool. Orientou 16 teses de doutorado e orienta 4 atualmente.