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Diferenças Emocionais: Consumo Moderado versus Abusivo de Álcool

03 Abril 2025

As diferenças no padrão de consumo podem influenciar como a pessoa lida com suas emoções e até certos traços de personalidade. A seguir, exploramos evidências científicas recentes que mostram como pessoas que bebem moderadamente diferem emocionalmente daquelas que fazem uso abusivo de álcool, considerando regulação emocional, traços de personalidade e fatores individuais envolvidos.

 

Regulação Emocional e Manejo do Estresse

Por que algumas pessoas conseguem consumir álcool de forma moderada, sem ter problemas, ao passo que outras têm dificuldades de lidar com a substância? Uma diferença importante entre beber moderadamente e abusar do álcool está na capacidade de regulação emocional – ou seja, como a pessoa gerencia sentimentos como estresse, tristeza ou raiva. Estudos indicam que indivíduos que consomem álcool de forma abusiva tendem a ter mais dificuldade em lidar com emoções negativas sem beber, em comparação com quem bebe moderadamente.1 Muitas vezes, quem bebe em excesso utiliza o álcool como “válvula de escape” para tensões do dia a dia, o que aponta para uma regulação emocional menos eficiente. De fato, pesquisa com pessoas em tratamento por dependência do álcool mostrou que elas apresentam maiores déficits na habilidade de tolerar sentimentos negativos do que indivíduos que bebem socialmente.1 Por outro lado, consumidores moderados geralmente não dependem do álcool para enfrentar emoções difíceis – eles costumam empregar outras estratégias de enfrentamento, mantendo melhor equilíbrio emocional sem precisar se embriagar. Vale notar também que o uso abusivo pode piorar as emoções no longo prazo: após episódios de bebedeira, é comum surgirem sintomas como ansiedade elevada, irritabilidade e humor deprimido durante a ressaca. 2 

Traços de Personalidade e Impulsividade

Além de afetar como lidamos com as emoções, o padrão de consumo de álcool também se relaciona a traços de personalidade. Pessoas que fazem uso abusivo de álcool frequentemente exibem traços como maior impulsividade e busca de sensações intensas, bem como uma tendência a experimentar humores negativos com mais frequência. Pesquisas recentes apontam que consumidores pesados de álcool, em média, tendem a ser menos conscienciosos (ou seja, menos disciplinados e organizados) e menos agradáveis (podendo demonstrar mais hostilidade), além de apresentarem níveis mais altos de neuroticismo – traço ligado à instabilidade emocional e propensão à ansiedade e oscilações de humor.3 Em outras palavras, quem abusa do álcool costuma ser mais impulsivo e emocionalmente reativo. Por exemplo, alguns estudos mostram que tanto bebedores moderados quanto alguns bebedores pesados tendem a ser um pouco mais extrovertidos em comparação a abstêmios, buscando socialização, mas os bebedores abusivos se diferenciam por essa impulsividade elevada e menor autocontrole, que pode levá-los a exceder os limites seguros de consumo.3 Esses traços de personalidade impulsivos podem predispor ao consumo exagerado e, ao mesmo tempo, ser agravados pelo hábito de beber em excesso, criando um ciclo negativo.

 

Padrão de Uso e Dose: Efeitos Emocionais Diferentes

O efeito do álcool nas emoções também varia conforme a dose ingerida e o padrão de uso. Em doses baixas a moderadas, o álcool costuma ter efeito desinibidor leve e ansiolítico, ou seja, pode reduzir a tensão e favorecer uma sensação de relaxamento e bem-estar momentâneo. Há evidências de que o uso moderado aumenta emoções positivas e a sensação de vínculos sociais – as pessoas ficam mais descontraídas e socialmente engajadas após pouco álcool.4 Não é à toa que, em contextos sociais, quem bebe moderadamente relata se sentir mais alegre ou sociável. No entanto, esse efeito tem um limite. À medida que a dose de álcool aumenta (no uso abusivo), os efeitos podem se tornar prejudiciais: doses altas de álcool podem gerar mudanças bruscas de humor, aumento de agressividade ou reações emocionais exageradas. Estudos com jovens adultos mostram que episódios de bebedeira intensa trazem mais consequências negativas – como arrependimentos, discussões ou comportamentos de risco – sem necessariamente aumentarem as sensações positivas.5 

Em resumo, abstêmios ou quem consome álcool de forma moderada tendem a apresentar maior equilíbrio emocional, usando a bebida em contextos sociais e demonstrando mais controle sobre seus impulsos. Já o uso abusivo está associado a maior dificuldade na regulação emocional, impulsividade e oscilações de humor. Essas diferenças são influenciadas tanto pela dose ingerida quanto por características individuais, como a forma de lidar com o estresse. Manter a moderação ajuda a proteger não só a saúde física, mas também o bem-estar emocional.


 

 

Additional Info

  • Referências:
    1. Jakubczyk, A., Trucco, E. M., Kopera, M., Kobyliński, P., Suszek, H., Fudalej, S., Brower, K. J., & Wojnar, M. (2018). The association between impulsivity, emotion regulation, and symptoms of alcohol use disorder. Journal of substance abuse treatment, 91, 49–56. https://doi.org/10.1016/j.jsat.2018.05.004
    2. van Schrojenstein Lantman, M., Mackus, M., van de Loo, A. J. A. E., & Verster, J. C. (2017). The impact of alcohol hangover symptoms on cognitive and physical functioning, and mood. Human psychopharmacology, 32(5), e2623. https://doi.org/10.1002/hup.2623
    3. Gmel, G., Marmet, S., Studer, J., & Wicki, M. (2020). Are Changes in Personality Traits and Alcohol Use Associated? A Cohort Study Among Young Swiss Men. Frontiers in psychiatry, 11, 591003. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2020.591003
    4. Sayette M. A. (2017). The effects of alcohol on emotion in social drinkers. Behaviour research and therapy, 88, 76–89. https://doi.org/10.1016/j.brat.2016.06.005
    5. Patrick, M. E., & Terry-McElrath, Y. M. (2021). Drinking Motives and Drinking Consequences across Days: Differences and Similarities between Moderate, Binge, and High-Intensity Drinking. Alcoholism, clinical and experimental research, 45(5), 1078–1090. https://doi.org/10.1111/acer.14591

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