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O uso de Ozempic (semaglutida) pode reduzir o consumo de álcool?

17 Novembro 2023

Estudos revelam os possíveis efeitos do medicamento para o tratamento de diabetes tipo 2  e o transtorno por uso de álcool.

Atualmente, apenas três medicações são aprovadas para o tratamento da dependência de álcool: o dissulfiram, o acamprosato e a naltrexona (para saber mais, veja nosso texto “Existem medicamentos para o tratamento do alcoolismo?”). Novos tratamentos podem ser identificados ao estabelecer os mecanismos neurobiológicos que estão por trás do desenvolvimento do alcoolismo. 

O alcoolismo é uma condição multifacetada, com desafios significativos no tratamento, incluindo a ingestão de alta quantidade de álcool por período prolongado e episódios de recaída frequentes entre os que estão buscando parar de beber. Tanto o consumo de álcool quanto a recaída são, até certo ponto, impulsionados pelas propriedades recompensadoras do álcool, o que em humanos se correlaciona com um aumento da disponibilidade do neurotransmissor dopamina em uma região muito importante do circuito de recompensa cerebral, chamada de núcleo accumbens (NAc).1

O GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1) é um hormônio gastrointestinal incretina importante no contexto do metabolismo da glicose e no tratamento da diabetes tipo 2. Este hormônio é liberado no intestino delgado após a ingestão de alimentos e estimula a liberação de insulina no pâncreas em resposta a um aumento da glicose sanguínea.2 Dentro dos análogos do GLP-1, a semaglutida (mais conhecida como Ozempic) é aprovada pelo FDA (instituição norte-americana “Food and Drug Administration”) como tratamento para diabetes tipo 2 e obesidade. 

Uma série de experimentos envolvendo abordagens comportamentais, neuroquímicas e moleculares em ratos e camundongos foram realizados para investigar as lacunas de conhecimento em relação ao GLP-1 e seu impacto no alcoolismo. O achado principal do estudo em ratos foi o efeito de doses baixas de semaglutida na supressão aguda e dose-dependente do consumo de álcool. Supõe-se que, ao bloquear a atividade locomotora e a elevação de dopamina no NAc induzida pelo álcool, a semaglutida possa atenuar a recompensa do álcool.2

Outro estudo pré-clínico com ratos também demonstrou o papel do sistema GLP-1 como um potencial alvo farmacoterapêutico para o alcoolismo. Observou-se que ratos dependentes de álcool apresentaram uma redução no consumo de álcool quando submetidos a intervenções neste sistema. Além disso, sugere-se que o sistema GLP-1 pode influenciar a neurotransmissão gabaérgica.3 Isso é particularmente relevante, considerando que o álcool intensifica a função inibitória no cérebro, principalmente através do ácido gama-aminobutírico (GABA), o principal neurotransmissor inibitório no cérebro.4

Contudo, as limitações desses estudos incluem a dificuldade em generalizar diretamente os resultados para humanos, pois foram realizados em animais. A redução do consumo de álcool em modelos animais pode não capturar completamente os aspectos psicológicos, sociais e ambientais do alcoolismo em humanos. Além disso, os estudos não avaliaram os efeitos a longo prazo do tratamento com a semaglutida em animais e o desenvolvimento de tolerância ao medicamento.

Em suma, embora os estudos atuais sobre semaglutida e outros análogos do GLP, como a liraglutina e exenatida, mostrem resultados promissores na redução do consumo de álcool e na modulação da neurotransmissão central, é importante enfatizar que essas descobertas ainda estão em estágios iniciais e foram realizadas em modelos animais, o que leva a necessidade de ensaios clínicos robustos para melhor compreensão desses resultados. Enquanto esses estudos abrem caminhos para novas terapias, eles também destacam a necessidade de pesquisa contínua e cuidadosa de soluções efetivas e abrangentes para o tratamento do alcoolismo. 

 

 

 

Additional Info

  • Referências:

     1. Aranäs, C., Edvardsson, C. E., Shevchouk, O. T., Zhang, Q., Witley, S., Blid Sköldheden, S., Zentveld, L., Vallöf, D., Tufvesson-Alm, M., & Jerlhag, E. (2023). Semaglutide reduces alcohol intake and relapse-like drinking in male and female rats. EBioMedicine, 93, 104642. https://doi.org/10.1016/j.ebiom.2023.104642

    2. Aaboe, K., Krarup, T., Madsbad, S., & Holst, J. J. (2008). GLP-1: physiological effects and potential therapeutic applications. Diabetes, obesity & metabolism, 10(11), 994–1003. https://doi.org/10.1111/j.1463-1326.2008.00853.x

    3. Chuong, V., Farokhnia, M., Khom, S., Pince, C. L., Elvig, S. K., Vlkolinsky, R., Marchette, R. C., Koob, G. F., Roberto, M., Vendruscolo, L. F., & Leggio, L. (2023). The glucagon-like peptide-1 (GLP-1) analogue semaglutide reduces alcohol drinking and modulates central GABA neurotransmission. JCI insight, 8(12), e170671. https://doi.org/10.1172/jci.insight.170671

    4. Lobo, I. A., & Harris, R. A. (2008). GABA(A) receptors and alcohol. Pharmacology, biochemistry, and behavior, 90(1), 90–94. https://doi.org/10.1016/j.pbb.2008.03.006

     

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