História do Álcool

27 junho, 2004

Acredita-se que a bebida alcoólica teve origem na Pré-História, mais precisamente durante o período Neolítico quando houve a aparição da agricultura e a invenção da cerâmica.

Você sabia que...

  • A bebida alcoólica surgiu ao acaso durante o período Neolítico na pré-história1,2?
  • Alexandre, o Grande, caiu inconsciente depois de beber muito em seu ultimo banquete e veio a morrer dias depois de doença relacionada ao abuso de álcool3?
  • A regulamentação do comércio de vinho passou a existir de forma mais consistente a partir da Idade Média4?
  • As mulheres russas proletárias no inicio do século XX colocavam bebida destilada nas chupetas de seus filhos5?
  • Na Inglaterra do século XVIII o gim era conhecido como a bebida de preferência das mulheres6?
  • Apesar do abuso de álcool ter sido sempre criticado durante a história humana, o conceito de dependência alcoólica só foi surgir no final do século XVIII e início do século XIX7?


Quando tudo começou...

Acredita-se que a bebida alcoólica teve origem na Pré-História, mais precisamente durante o período Neolítico quando houve a aparição da agricultura e a invenção da cerâmica. A partir de um processo de fermentação natural ocorrido há aproximadamente 10.000 anos o ser humano passou a consumir e a atribuir diferentes significados ao uso do álcool. Os celtas, gregos, romanos, egípcios e babilônios registraram de alguma forma o consumo e a produção de bebidas alcoólicas1,2.

A Embriaguez de Noé

Em uma das mais belas passagens do Antigo Testamento da Bíblia (Gênesis 9.21)  Noé, após o dilúvio, plantou vinha e fez o vinho. Fez uso da bebida a ponto de se embriagar. Reza a bíblia que Noé gritou, tirou a roupa e desmaiou. Momentos depois seu filho Cam o encontrou "tendo à mostra as suas vergonhas". Foi a primeiro relato que se tem conhecimento de um caso de embriaguez. Michelangelo, famoso pintor renascentista (1475-1564), se inspirou nesse episódio pintar um belíssimo afresco, com esse nome, no teto da Capela Sistina, no Vaticano. Nota-se, assim, que não apenas o uso de álcool, mas também a sua embriaguez, são aspectos que acompanham a humanidade desde seus primórdios.

O álcool através da história

Grécia e Roma

O solo e o clima na Grécia e em Roma eram especialmente ricos para o cultivo da uva e produção do vinho. Os gregos e romanos também conheceram a fermentação do mel e da cevada, mas o vinho era a bebida mais difundida nos dois impérios tendo importância social, religiosa e medicamentosa1,8.

No período da Grécia Antiga o dramaturgo grego Eurípedes (484 a.C.-406 a.C.) menciona nas Bacantes duas divindades de primeira grandeza para os humanos: Deméter, a deusa da agricultura que fornece os alimentos sólidos para nutrir os humanos, e Dionísio, o Deus do vinho e da festa (Baco para os Romanos). Apesar do vinho participar ativamente das celebrações sociais e religiosas greco-romanas, o abuso de álcool e a embriagues alcoólica já eram severamente censurados pelos dois povos. 1

Egito Antigo

Os egípcios deixaram documentado nos papiros as etapas de fabricação, produção e comercialização da cerveja e do vinho. Eles também acreditavam que as bebidas fermentadas eliminavam os germes e parasitas e deveriam ser usadas como medicamentos, especialmente na luta contra os parasitas provenientes das águas do Nilo.1,2

Idade Média

A comercialização do vinho e da cerveja cresce durante este período, assim como sua regulamentação. A intoxicação alcoólica (bebedeira) deixa de ser apenas condenada pela igreja e passa a ser considerada um pecado por esta instituição.4

Idade Moderna

Durante e Renascença passa a haver a fiscalização dos cabarés e tabernas, sendo estipulados horários de funcionamento destes locais. Os cabarés e tabernas eram considerados locais onde as pessoas podiam se manifestar livremente e o uso de álcool participa dos debates políticos que mais tarde vão desencadear na Revolução Francesa.4

Idade Contemporânea

O fim do século 18 e o início da Revolução Industrial é acompanhado de mudanças demográficas e de comportamentos sociais na Europa. É durante este período que o uso excessivo de bebida passa a ser visto por alguns como uma doença ou desordem.7 Ainda no início e na metade do século 19 alguns estudiosos passam a tecer considerações sobre as diferenças entre as bebidas destiladas e as bebidas fermentadas, em especial o vinho. Neste sentido, Pasteur em 1865, não encontrando germes maléficos no vinho declara que esta é a mais higiênica das bebidas.9

Durante o século 20 paises como a França passam a estabelecer a maioridade de 18 anos para o consumo de álcool e em janeiro de 1920 o estado Americano decreta a Lei Seca que teve duração de quase 12 anos. A Lei Seca proibiu a fabricação, venda, troca, transporte, importação, exportação, distribuição, posse e consumo de bebida alcoólica e foi considerada por muitos um desastre para a saúde pública e economia americana.11

Foi no ano de 1952 com a primeira edição do DSM-I (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) que o alcoolismo passou a ser tratado como doença.7,10

No ano de 1967, o conceito de doença do alcoolismo foi incorporado pela Organização Mundial de Saúde à Classificação Internacional das Doenças (CID-8), a partir da 8ª Conferência Mundial de Saúde12,13. No CID-8, os problemas relacionados ao uso de álcool foram inseridos dentro de uma categoria mais ampla de transtornos de personalidade e de neuroses. Esses problemas foram divididos em três categorias: dependência, episódios de beber excessivo (abuso) e beber excessivo habitual. A dependência de álcool foi caracteriza pelo uso compulsivo de bebidas alcoólicas e pela manifestação de sintomas de abstinência após a cessação do uso de álcool14

Additional Info

  • Referencias:

    1. Viala-Artigues, J. & Mechetti,C. (2003). Histoire de l´alcool archéologie partie 1.
    2. McGovern, Patrick E. The Origins and Ancient History of Wine. (http://www.museum.upenn.edu/new/exhibits/online_exhibits/wine/wineintro.html).
    3. Liappas,J.A., Lascaratos, J., Fafouti, S., Christodoulou, G.N., (2003). Alexander the Great´s relationship with alcohol. Addiction. 98. 561-567.
    4. Viala-Artigues, J. & Mechetti,C. (2003). Histoire de l´alcool archéologie partie 2.
    5. Phillips, L. (1999). In defense of their families: Working-Class Women, Alcohol, and Politics in Revolutionary Russia. Journal of Women´s History. Vol. 11. 97-120.
    6. Warner,J. & Ivis, F. (2000). Centre for Addiction and Mental Health, Toronto. Eighteen-Century Life. 24. 85-105
    7. Jerome, H.J. (1993). The concept of dependence: Historical Reflections. Alcohol Health and Research World. 17. 188-190.
    8. Purcell, N. (2003). Diet, Community, And History At Rome. American Journal of Philology. 124. 329-358
    (http://www.press.jhu.edu/journals/american_journal_of_philology/)
    9. Viala-Artigues, J. & Mechetti,C. (2003). Histoire de l´alcool les temps modernes partie 1
    10. Viala-Artigues, J. & Mechetti,C. (2003). Histoire de l´alcool les temps modernes partie 2
    11. History of Alcohol. Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau. US Department of Treasure
    12.Lexicon of alcohol and drug terms – Organização Mundial de Saúde (OMS), 1994.
    13.The natural history of alcoholism - George E. Vaillant. Harvard University Press, 1983.
    14. Diagnostic Criteria for Alcohol Abuse and Dependence – National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA) - Alcohol Alert, No 30, 1995 (http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/aa30.htm)

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