Ressaca: efeitos da intoxicação aguda por álcool

20 Março 2020

Conheça mais sobre a ressaca: sua definição, fatores que a influenciam e prejuízos associados.

O QUE É RESSACA?

A “ressaca” parece ser a maneira que nosso organismo tem de nos lembrar sobre os perigos do consumo excessivo de álcool, afinal, é o resultado da intoxicação aguda pela substância. Apesar de ser um dos assuntos mais procurados na internet, a ressaca ainda é um dos temas relacionados ao álcool que precisa ser mais estudado. Com o intuito de aumentar a consistência e a confiabilidade de dados nesta área, cientistas renomados fundaram o Alcohol Hangover Research Group (AHRG) em 2010.

Um dos avanços foi o consenso sobre a definição de ressaca: “a combinação de sintomas físicos e mentais, experimentada no dia seguinte a um único episódio de consumo excessivo, começando aquando a concentração de álcool no sangue (CAS) se aproxima de zero"1,2. Isso significa que os sintomas da ressaca iniciam-se cerca de 6 a 8 horas após o consumo, em média, e podem durar até 24 horas.

Ela é caracterizada por efeitos físicos e mentais adversos, com uma variedade de sintomas de “mal-estar”, sendo os mais comuns: dor de cabeça, náuseas, problemas de concentração, boca seca, tontura, desconforto gastrintestinal, cansaço, tremores, falta de apetite, sudorese, sonolência, ansiedade e irritabilidade.

A causa dos sintomas da ressaca é atribuída principalmente ao acetaldeído, principal produto da metabolização do álcool3,4. Como resultado, podem ocorrer diversas reações no corpo que irão compor o que se entende como ressaca, tais como:

  • Desidratação, que causa sede, sensação de boca seca, e dores musculares decorrentes da perda de eletrólitos;
  • Aumento da produção de suco gástrico que pode causar irritação gastrintestinal e resultar em dor abdominal, náusea e vômitos.
  • Hipoglicemia induzida pelo álcool, que pode afetar o funcionamento cerebral, levando ao cansaço e mudanças de humor observados na ressaca.
  • Alterações no padrão do sono, bem como na sua qualidade, levando à fadiga e alterações no ritmo circadiano.

 

O QUE INFLUENCIA SUA OCORRÊNCIA E GRAVIDADE?

Há uma variação muito grande na presença e intensidade dos sintomas da ressaca entre as pessoas, motivada por fatores como as características fisiológicas (estrutura física, sexo, vulnerabilidade genética, idade e condição de saúde), aspectos do beber (quantidade e frequência, qualidade da bebida e ingestão de água e alimentos) e contexto do consumo (beber em grupo ou em ambientes que estimulam o consumo).3

De todo modo, a quantidade de álcool ingerida está diretamente relacionada aos sintomas da ressaca. Pesquisa recente5 verificou um número significativo de participantes que relataram ressaca após a  ingestão de baixas doses de álcool, e os autores sugerem que a ressaca poderia ocorrer após o consumo de qualquer pico de CAS, mas que é mais provável de ocorrer se o indivíduo beber substancialmente mais álcool do que costuma tomar em ocasiões que não resultam em ressaca.

A tabela a seguir traz uma correlação estimada entre CAS, número de doses consumidas e efeitos no organismo, considerando variáveis individuais (vulnerabilidade genética, peso, altura, metabolismo e sexo).

Existem várias hipóteses para explicar o aparecimento e a gravidade da ressaca. Além da quantidade de álcool consumida, outros fatores relacionados ao consumo propriamente dito (intervalo de tempo do consumo ou o tipo de bebida) podem influenciar o aparecimento dela. Estudo publicado em 2019 encontrou uma associação positiva e significativa entre a frequência e a gravidade da ressaca, sugerindo que sua severidade aumenta quando ela ocorre com mais frequência, e pode ser motivada pela sensibilização ou tolerância reversa a esse aspecto do consumo de álcool6.

O número de pessoas que relatam ter sofrido de ressaca é alto, com estudos apontando 78% de prevalência entre todos os tipos de bebedores7. Entre os bebedores pesados a incidência é ainda maior: 90% dos estudantes que declararam beber neste padrão (definido pelo estudo8 como o consumo de 5 ou mais doses em uma única ocasião) haviam sofrido ressaca.

PREZUÍZOS ASSOCIADOS À RESSACA

 

Os domínios tipicamente afetados na ressaca são o físico, o humor e o funcionamento cognitivo2,9, 10. Em um estudo que teve como objetivo identificar quais sintomas têm maior impacto nesses domínios, os resultados mostraram que os sintomas mais debilitantes foram: fadiga, sonolência, dor de cabeça e problemas de concentração.

Estudo feito para investigar a atenção, o funcionamento da memória e o humor durante a ressaca submeteu dois grupos – um durante a ressaca e outro que não consumiu álcool – a testes cognitivos, e encontrou uma diferença significativa no desempenho de ambos no teste. A atenção seletiva foi significativamente prejudicada durante a ressaca do álcool. Avaliações de humor revelaram que o grupo da ressaca relatou níveis significativamente mais altos de sonolência e falta de habilidade em comparação com o grupo controle 11.

Outra revisão, que teve como objetivo analisar os efeitos da ressaca no funcionamento cognitivo, revelou que memórias de curto e longo prazo, velocidade psicomotora e atenção sustentada são as funções mais afetadas no dia seguinte a um episódio de beber pesado. Esses prejuízos têm implicações para a performance intelectual e habilidades práticas como dirigir12. Isso acontece porque os resíduos da metabolização do álcool, presentes no sangue por um período maior do que o etanol em si (cerca de 6 a 20 horas, dependendo do número de doses ingerido), estão associados ao comprometimento de habilidades psicomotoras, o que pode interferir na destreza do motorista13.

Todos os prejuízos associados ao consumo abusivo de álcool e à ressaca sugerem que a melhor alternativa para a evitar é a abstenção ou consumo moderado e, em caso de excessos, aguardar o processo de metabolização do organismo.

 

Para saber mais sobre o assunto, acesse nossa página do YouTube. Lá, é possível encontrar conteúdo sobre vários assuntos sobre álcool e saúde, inclusive ressaca.

 

Additional Info

  • Referências:

    1. Vester, 2008. The alcohol hangover – a puzzling phenomenon. Alcohol Alcohol 43:124-126.
    2. Prat et al., 2009. Alcohol hangover: a critical review of explanatory factors. Hum Psychopharmacol Clin Exp 24:259-267.
    3. Span & Earleywine, 1999. Familial risk for alcoholism and hangover symptoms. Addict Behav 24:121-125.
    4. Earleywine, 1993. Personality risk for alcoholism covaries with hangover symptoms. Addict Behav 18:415-420.
    5. Howland et al., 2008. Are some drinkers resistant to hangover? A literature review. Curr Drugs Abuse Rev 1:42-46.
    6. Frone, 2006. Prevalence and distribution of alcohol use and impairment in the workplace: a U.S. national survey. J Stud Alcohol 67:147-166.
    7. Swift & Davidson, 1998. Alcohol Hangover – Mechanisms and mediators. Alcohol Health Res World 22:54-60.
    8. Stephens et al., 2008. A review of the literature on the cognitive effects of alcohol hangover. Alcohol Alcohol 43:163-170.
    9. Kim et al., 2003. Effects of alcohol hangover on cytokine production in healthy subjects. Alcohol 31:167-170.
    10. Reichenberget AL., 2001. Cytokine-associated emotional and cognitive disturbances in humans. Arch Gen Psychiatry 58:445-452.
    11. Prat et al., 2008. Neurocognitive effects of alcohol hangover. Addict Behav 33:15-23.
    12. Williams, 1984. Alcoholic hypoglycemia and ketoacidosis. Med Clin North Am 68:33-38.
    13. Roehrs & Roth, 2001. Sleep, sleepiness, sleep disorders and alcohol use and abuse. Sleep Med Rev 5:287-297.
    14. Bendtsen et al., 1998. Urinary excretion of methanol and 5-hydroxytryptophol as biochemical markers of recent drinking in the hangover state. Alcohol Alcohol 33:431-438.
    15. Pawan, 1973. Alcoholic drinks and hangover effects. Proc Nutr Soc 32:15A.

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