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Mortes atribuíveis ao álcool: quais as diferenças entre Brasil e Estados Unidos?

02 Dezembro 2022

Existem diferenças entre mortes relacionadas ao consumo nocivo de álcool entre o país mais rico do mundo, os Estados Unidos, e o Brasil?

Um estudo recente, publicado na renomada revista JAMA Open Network, analisou as mortes atribuíveis ao álcool nos Estados Unidos1. Os dados de consumo de álcool foram provenientes de uma pesquisa com mais de 2 milhões de norte-americanos que monitorou fatores de risco comportamentais entre 2015 e 2019. A partir destes resultados, os autores estimaram a quantidade de mortes ocorridas na população de 20 a 64 anos do país, extrapolando também para todas as faixas etárias, além de separar a quantidade de mortes para cada um dos 50 estados e distrito federal. 

A principal estimativa do estudo aponta que o consumo nocivo de álcool é responsável por uma em cada oito mortes entre adultos de 20 a 64 anos nos Estados Unidos. As principais causas de mortes atribuíveis ao álcool estimadas para toda a população foram as doenças alcoólicas do fígado (classificadas com o CID K70), dentre as quais constam a hepatite alcoólica e a cirrose hepática alcoólica. Em seguida, constavam como principais causas de óbito o envenenamento por álcool (isto é, overdose) e acidentes de trânsito. No total, estima-se que o álcool foi responsável por 5% do total de mortes no país, considerando toda a população. Este percentual é similar ao encontrado no Brasil e no mundo2. Contudo, quando se considera a faixa etária de 20 a 64 anos, que abrange a maior parte dos bebedores, o álcool foi responsável por 12,9% do total de mortes. Já para a faixa etária de jovens adultos (20 a 34 anos), essa estimativa sobe para preocupantes 25,4%. As principais causas de mortes relacionadas ao álcool entre os jovens foram os envenenamentos, os acidentes de trânsito e os homicídios.    

Em relação aos estados, a figura abaixo apresenta as estimativas de mortes atribuíveis ao álcool na faixa etária de 20 a 49 anos para as unidades federativas dos Estados Unidos.  O recorte para esta faixa etária é feito pois representa uma população de alto impacto econômico no país. De modo geral, observa-se que os estados do norte e oeste apresentam maiores taxas de mortes atribuíveis ao álcool. No país como um todo, estimou-se que o álcool foi responsável por uma em cada cinco mortes em pessoas de 20 a 49 anos, entre 2015 e 2019, com alguns estados chegando a mais de uma em cada quatro mortes. 



 

Como está o Brasil em comparação com os Estados Unidos?

 

No que se refere a mortes atribuíveis ao álcool, Brasil e Estados Unidos apresentam algumas similaridades. Comparando este estudo norte-americano com o levantamento feito pelo CISA, “Álcool e Saúde dos Brasileiros: Panorama 2022”, observa-se que o álcool foi responsável por 5,8% das mortes em 2010 e 4,3% das mortes em 2020, valores similares à estimativa de 5% observada nos Estados Unidos para a série histórica de 2015 a 2019. 

Além disso, no Brasil, tanto em 2019 quanto em 2020 a cirrose hepática foi a principal causa de morte atribuível ao álcool, similar ao estimado para doenças hepáticas alcoólicas nos Estados Unidos. De modo geral, o álcool é responsável por 43,2 mortes por 100 habitantes nos Estados Unidos, e no Brasil este valor variou de 34 para 31,4 entre 2010 e 2020, valor consideravelmente inferior ao norte-americano. 

Diferente dos Estados Unidos, o Brasil apresentou a violência interpessoal como um dos principais fatores de óbitos atribuíveis ao álcool, assumindo a terceira colocação entre 2010 e 2019 (perdendo apenas para acidentes de trânsito e cirrose hepática), sendo a segunda principal causa de morte relacionada ao álcool para pessoas com até 34 anos.  

Um outro fator semelhante, e preocupante, entre os países é a alta taxa de Beber Pesado Episódico (BPE) entre as populações adultas mais jovens, responsável pelo aumento das chances de mortes prematuras. Os autores apontam que, nos Estados Unidos, o fato de os jovens consumirem mais álcool de forma nociva é o que torna esta substância um dos principais fatores de risco para óbitos relacionados a acidentes de trânsito e overdose. De maneira similar, no Brasil, como o CISA vem salientando em suas redes sociais, os jovens estão mais propensos a acidentes de trânsito e brigas, fator fortemente associado à alta prevalência de BPE na faixa etária de 18 a 34 anos.

 

Por fim, os dados de ambos os países salientam a importância de políticas públicas que combatam o consumo nocivo e reduzam o impacto negativo que o álcool pode causar na sociedade, impacto este que pode ser muito grave mesmo em um país desenvolvido como os Estados Unidos. 


 

Additional Info

  • Referências:

     1. Esser MB, Leung G, Sherk A, Bohm MK, Liu Y, Lu H, et al. Estimated Deaths Attributable to Excessive Alcohol Use Among US Adults Aged 20 to 64 Years, 2015 to 2019. JAMA Netw Open [Internet]. 2022 Nov 1 [cited 2022 Nov 30];5(11):e2239485–e2239485. Available from: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2798004
    2. OMS. Global status report on alcohol and health 2018. Geneva: World Health Organization; 2018. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO. [Internet]. Poznyak V, Rekve D, editors. 2018 [cited 2020 Apr 15]. 478 p. Available from: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/274603/9789241565639-eng.pdf?ua=1

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