Alcoólicos Anônimos é religioso, espiritual, ou nenhum deles?

31 março, 2020

Este artigo analisa as origens religiosas/espirituais do programa do AA e contrasta sua teoria com resultados científicos sobre os mecanismos de mudança de comportamento.

Alcoólicos Anônimos (AA) é uma organização de ajuda mútua de recuperação para dependentes de álcool, que começou com dois membros e cresceu para mais de dois milhões em todo o mundo, além de servir de base para outras organizações similares, como os Narcóticos Anônimos. Apesar do seu alcance mundial, a ênfase religiosa/espiritual do AA ainda gera controvérsias. Existem benefícios clinicamente significativos, quando examinados sob os mais altos padrões científicos? Esses mesmos benefícios são alcançados por meio da espiritualidade?  O artigo em questão resume de forma concisa dados científicos recentes sobre os mecanismos de mudança de comportamento promovidos pelo AA. Foram utilizadas meta-análises, revisões sistemáticas e outros estudos que examinaram a eficácia do método e seus benefícios.

O Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, reconhecendo a influência do AA, exigiu pesquisas mais rigorosas sobre sua eficácia e seus mecanismos de mudança de comportamento. As pesquisas foram financiadas pelo National Institutes of Health, (NIH) dos Estados Unidos - Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, sigla em inglês)

. Os resultados foram surpreendentes. Mesmo quando comparado às intervenções de última geração, o modelo dos 12 passos produziu resultados tão bons, ou até melhores, no que se refere à abstinência sustentada e a remissão. O método também resulta em menores custos de cuidados de saúde.

Nessas intervenções, o principal objetivo é estimular a participação dos indivíduos nos encontros, que resulta em envolvimento ativo dos pacientes. Além disso, o aumento da espiritualidade também pode explicar o menor índice de depressão entre indivíduos com transtorno de uso de álcool que frequentam os encontros do AA. Isso levou a tentativas de aprimoramento do modelo de mediação do AA, para ajudar a esclarecer a importância relativa desses vários mediadores potenciais, e também a elucidar se pessoas diferentes (por exemplo, mais ou menos gravemente viciadas, homens e mulheres, jovens e idosos) se beneficiam do AA de diferentes maneiras.

 

RESULTADOS:

Os estudos concluíram que, em geral, o AA confere benefícios através de múltiplos mecanismos, mas, em particular, através da facilitação de mudanças sociais adaptativas e da abstinência. A importância relativa desses mecanismos variou de acordo com o grau de dependência, o gênero e a idade. Aqueles com menor grau de dependência foram beneficiados quase que inteiramente por mecanismos sociais. Nos casos mais graves de dependência, porém, os benefícios se deram pelo aumento da espiritualidade/religiosidade para lidar com os efeitos negativos da abstinência. Os homens se beneficiaram do AA no enfrentamento de situações sociais de alto risco, ou seja, onde haja disponibilidade de bebidas alcoólicas. No caso das mulheres, o AA ajudou a reduzir o risco de recaída, aumentando a sua capacidade de resistir aos efeitos negativos da abstinência. As diferenças também foram observadas entre jovens adultos (18-29 anos) e adultos mais velhos (30+ anos). Para os jovens adultos, os benefícios atribuídos ao AA foram principalmente relacionados ao convívio social, especialmente no que se refere ao afastamento de grupos de bebedores pesados. Entre adultos mais velhos, o AA foi mais importante para a adoção de hábitos de consumo de baixo risco e até mesmo a abstinência.

Dado que a espiritualidade é o principal mecanismo do AA para a mudança de comportamento, à primeira vista, esses achados parecem estar em desacordo com seu próprio programa de 12 etapas. Os resultados sugerem, no entanto, que os efeitos salutares do AA vão ao encontro do que Carl Jung chamou de "o muro protetor da comunidade humana", ajudando as pessoas a alcançar e manter a recuperação, por mobilizar mudanças sociais, cognitivas e afetivas de recuperação.

Considerando os contínuos desafios relacionados à definição do que é “espiritualidade", um dos pontos fortes do AA, que ajudam o seu crescimento e sobrevivência nos últimos 80 anos, pode ser o fato de aceitar o que "Deus" e espiritualidade significam para cada indivíduo, incluindo até mesmo não se auto definir como espiritualista.

A conotação religiosa do AA continua a suscitar ceticismo e preocupação na mídia popular e no terreno científico.

As evidências demonstram que o AA é um aliado eficaz para a clínica e a saúde pública, que mobiliza mecanismos terapêuticos semelhantes àqueles do tratamento formal, mas é capaz de fazer isso gratuitamente, a longo prazo, nas comunidades em que os pacientes vivem. Rejeitar o AA como uma opção de suporte para a recuperação da dependência, por ter uma base “religiosa" e, portanto, não científica, é inconsistente com o conjunto de pesquisas rigorosas acumulado nos últimos 25 anos.

Additional Info

  • Referências:

    NIDA. COVID-19: Potential Implications for Individuals with Substance Use Disorders. National Institute on Drug Abuse website. https://www.drugabuse.gov/about-nida/noras-blog/2020/03/covid-19-potential-implications-individuals-substance-use-disorders. March 12, 2020. Accessed March 19, 2020.

  • Autor(es): John F. Kelly
  • D.O.I.: https://doi.org/10.1111/add.13590
  • Título(s) original(is): Is Alcoholics Anonymous religious, spiritual, neither? Findings from 25 years of mechanisms of behavior change research
  • Fonte:

    Addiction. 2017 Jun;112(6):929-936

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