Epidemia de COVID-19 na China e problemas psicológicos associados

3 julho, 2020

Estudo realizado na China mostra que as epidemias não são apenas uma ameaça à saúde física das pessoas, afetando significativamente sua saúde mental, com aumento na prevalência dos sintomas de ansiedade, depressão e do consumo nocivo de álcool.

Um surto inesperado de uma doença sempre ameaça a saúde mental – seja das pessoas diretamente afetadas pelo problema, como pacientes e profissionais de saúde, ou daquelas afetadas pelo isolamento social. Alguns indicativos dessa epidemia são sintomas de ansiedade, depressão, estresse, sentimentos de solidão, raiva e outros problemas psicológicos. Estudo publicado na revista Asian Journal of Psychiatry1 teve como objetivo abordar o sofrimento psicológico induzido pela atual epidemia de COVID-19 e pelo prolongado confinamento de cidadãos chineses, visando entender tal impacto e fortalecer a preparação futura para cenários semelhantes.

Para isso, foi conduzida uma pesquisa online com 1074 pessoas entre 14 a 68 anos de idade, que responderam a questionários para identificar a presença de sintomas de ansiedade, de depressão, problemas relacionados ao álcool nos últimos 12 meses, aspectos positivos da saúde mental (bem-estar subjetivo e funcionamento psicológico), e uma seção de informações pessoais (idade, sexo, local de residência, profissão e renda mensal).

Os autores mostraram que 29% dos entrevistados apresentavam sintomas de ansiedade em diferentes graus (leve 10,1%, moderada 6,0% e grave 12,9%), relacionados ao isolamento em casa devido ao surto de COVID-19. Mais de um terço dos entrevistados (37,1%) apresentaram diferentes graus de depressão (leve 10,2%, moderada 17,8% e severa 9,1%). Aproximadamente um terço das pessoas (32,1%) estava com bem-estar mental prejudicado. O consumo nocivo de álcool também foi relatado por parcela dos entrevistados: uso prejudicial 29,1%, abuso 9,5% e dependência 1,6%.

Houve pouca diferença entre homens e mulheres no que diz respeito à presença de sintomas de ansiedade, depressão e bem-estar mental; porém, nota-se uma correlação muito significativa entre gênero e abuso de álcool. A proporção de homens que relataram abuso ou dependência do álcool foi seis vezes maior do que as do sexo feminino. Também houve associação significativa entre a prevalência de ansiedade, depressão e bem-estar mental prejudicado e a idade dos participantes da pesquisa, mais alta na faixa etária entre 21-30 anos, seguida pela faixa etária 31-40 anos.

Os achados do estudo mostram que as epidemias não são apenas uma ameaça à saúde física das pessoas, afetando significativamente sua saúde mental. Por essa razão, os autores recomendam a implementação de uma abordagem multifacetada nos níveis pessoal, social e internacional, como:

  • Controle do excesso de exposição midiática de caráter espetaculoso em relação às tragédias causadas pela pandemia, buscando fontes confiáveis e objetivas de informação;
  • Elaboração de estratégia de treinamento e tratamento, a partir dos aprendizados de epidemias anteriores;
  • Atenção especial a grupos vulneráveis, tais como familiares e amigos de pessoas que contraíram ou morreram por COVID-19;
  • Utilização de plataformas online de atendimento psicológico emergencial;
  • Manutenção de um plano de identificação e tratamento de indivíduos após a resolução da pandemia.

Como estudos anteriores mostraram, pacientes com alta de SARS-CoV desenvolveram ansiedade, depressão, síndrome de estresse pós-traumático3 e profissionais de saúde são vulneráveis colateralmente. Durante uma epidemia, pode haver um aumento da coesão social que pode atrasar o sofrimento, mas à medida que essa coesão diminui, os indivíduos podem começar a sentir mais ansiedade e uma sensação de trauma. Por isso, é importante que o apoio psicológico e a reabilitação a longo prazo estejam disponíveis para uma recuperação sustentada.   

 

 

Additional Info

  • Referências:
    1. Ahmed MZ, Ahmed O, Aibao Z, Hanbin S, Siyu L, Ahmad A. Epidemic of COVID-19 in China and associated Psychological Problems. Asian J Psychiatr. 2020;51:102092.
    2. Organização Mundial da Saúde (OMS). Global Status Report on Alcohol and Health 2018. Disponível em: https://www.who.int/substance_abuse/publications/global_alcohol_report/en/
    3. Lee AM, Wong JG, McAlonan GM, Cheung V, Cheung C, Sham PC, et al. Stress and psychological distress among SARS survivors 1 year after the outbreak. Can. J. Psychiatry 2007;52(4):233–240.
  • Fonte:

    Infection and Immunity, May 2004, p. 2556-2563, Vol. 72, No. 5

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