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Uso de álcool pode afetar a capacidade de uma mulher lembrar do que ocorreu durante um encontro sexual?

14 Agosto 2023

Estudo revela que o consumo de álcool durante um encontro sexual não afeta memória das mulheres.

Dados do Reino Unido apontam que entre 2019 e 2021, 1,6 milhões de adultos com idade entre 16 e 74 anos sofreram estupro ou tentativa de estupro.1 No Brasil, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o número estimado de casos de estupro por ano é de 822 mil, o equivalente a dois por minuto. Sabe-se, também, que o uso nocivo de álcool está associado de forma importante à ocorrência de incidentes de violência, incluindo os de natureza sexual. Nesse sentido, uma pesquisa qualitativa do CISA em parceria com o Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica) mostrou que as mulheres percebem que o álcool aumenta sua suscetibilidade a incidentes de violência, como abuso e assédio, servindo, inclusive, como um motivo para controlarem o consumo, principalmente em situações em que estarão desacompanhadas. 

Um outro aspecto importante diz respeito ao quanto o álcool afeta a capacidade das pessoas de recordarem da experiência, sobretudo quando o nível de intoxicação é elevado. Quando denunciada a violação, a intoxicação aguda por álcool pode levantar questões sobre a capacidade da vítima e de testemunhas de lembrar do crime com precisão, podendo colocar em xeque a própria existência do abuso sexual quando o álcool está envolvido. Dada a evidente gravidade da questão, é fundamental a existência de pesquisas que mostrem de forma clara o papel do álcool nesse tipo de incidente. Será a substância capaz de afetar o juízo a ponto de apagar ou distorcer as memórias de incidentes dessa natureza.    

O consumo excessivo de álcool pode acarretar no prejuízo de consolidar, formar e manter novas memórias ao exercer um efeito neuroquímico de curto prazo nas redes neurais de uma região do cérebro chamada hipocampo. Classifica-se a amnésia neste caso como sendo do tipo “anterógrada”, pois a ingestão excessiva de álcool impossibilita a formação de memórias de novos eventos, ocorridos após a intoxicação, sem prejuízo para o resgate de memórias anteriores a este momento. 

Uma meta-análise de 2019 concluiu que testemunhas lembram de menos detalhes corretos sobre um crime que testemunharam quando intoxicadas por álcool em comparação com estarem sóbrias, porém o número de detalhes divergentes      que elas lembram sobre o crime não difere com base no consumo de álcool.2 Assim, o álcool parece afetar a completude, mas não a precisão dos relatos de memória. 

Uma explicação para esse achado sugere que testemunhas intoxicadas podem ajustar seu relato de memória para evitar erros de omissão devido a própria crença de que o álcool prejudica a memória.3 Uma outra teoria, chamada de hipervigilância, sugere que a precisão da memória para atividades não consensuais será maior se os participantes acreditarem que consumiram álcool, devido ao fato de se engajarem em comportamentos mais hipervigilantes ou cautelosos em comparação aos seus pares.  Além dessas, existe a hipótese de que pessoas intoxicadas por álcool durante encontros sexuais possam lembrar erroneamente de atividades consensuais como não consensuais.4,5

Com objetivo de abranger o conhecimento nesse tópico, um estudo publicado recentemente avaliou se a intoxicação aguda por álcool antes do encontro afeta a precisão com que as mulheres lembram de maneira diferente da atividade sexual, tanto consensual quanto não consensual.6 O estudo utilizou um desenho experimental misto com três variáveis independentes: tipo de bebida consumida (água tônica ou álcool), experiência das participantes sobre a bebida consumida (água tônica ou álcool) e o tipo de atividade sexual (consensual e não consensual). O grupo que ingeriu água tônica tinha 48 participantes, sendo 26 acreditando consumir bebida alcoólica e 22 esperando consumir apenas água tônica, enquanto o grupo que ingeriu álcool tinha 42 participantes, com 22 esperando álcool e 20 esperando água tônica. 

Nesse estudo, 90 mulheres entre 18 e 32 anos participaram. Elas foram apresentadas a diferentes cenários envolvendo interações com homens, incluindo atividades sexuais consensuais e não consensuais. Os cenários foram apresentados por computador através do procedimento de escolha da participante. Após a exposição, as participantes responderam a um questionário sobre suas memórias das atividades e o quão confiantes se sentiam em suas respostas. Foi avaliado também o nível de intoxicação percebida pelas participantes. Após sete dias, elas responderam um questionário online sobre as atividades que consensualmente se envolveram e a memória dos detalhes dos eventos que ocorreram durante a relação não consensual ou não consensual. 

Os resultados mostram que as mulheres que consumiram álcool durante o experimento foram tão precisas em lembrar atividades sexuais consensuais quanto não consensuais. Também se descobriu que as participantes que esperavam consumir álcool foram mais precisas, descritivamente falando, em lembrar atividades sexuais não consensuais, em comparação com aquelas que esperavam consumir água tônica, o que está de acordo com a hipótese da hipervigilância. Além disso, independentemente do tipo de bebida consumida, as participantes geralmente estavam excessivamente confiantes em sua precisão de memória. Essas descobertas têm importantes implicações para a prática, pois não confirmam a explicação de distorção de memória, que faz a previsão oposta (ou seja, que o consumo de álcool leva a uma lembrança ainda mais imprecisa).

Existem várias limitações deste estudo, uma delas é que os participantes não foram expostos ao mesmo grau de trauma que uma vítima de estupro. Outra limitação é que os níveis de intoxicação por álcool experimentados pelos participantes são baixos a moderados. No entanto, este estudo levanta questões importantes de pesquisa e abordagens teóricas que precisam ser investigadas.

 

 

Veja também Chemsex: o risco do consumo de álcool associado ao uso de outras substâncias psicoativas durante o sexo 

 

 

Additional Info

  • Referências:

    1. Office for National Statistics. (2021). Nature of sexual assault by rape or penetration, England and Wales: Year ending march 2020. Office for National Statistics.

    2. Jores, T., Colloff, M. F., Kloft, L., Smailes, H., and Flowe, H. D. (2019). A meta- analysis of the effects of acute alcohol intoxication on witness recall. Appl. Cogn. Psychol. 33, 334–343. doi: 10.1002/acp.3533 

    3. Flowe, H. D., and Carline, A. (eds.) (2021). Alcohol and remembering rape: New evidence for practice. London, United Kingdom: Palgrave-McMillan. doi: 10.1007/978-3-030-67867-8 

    4. van Oorsouw, K., Broers, N. J., and Sauerland, M. (2019). Alcohol intoxication impairs eyewitness memory and increases suggestibility: two field studies. Appl. Cogn. Psychol. 33, 439–455. doi: 10.1002/acp.3561 

    5. Evans, J. R., Schreiber Compo, N., Carol, R. N., Nichols-Lopez, K., Holness, H., and Furton, K. G. (2019). The impact of alcohol intoxication on witness suggestibility immediately and after a delay. Appl. Cogn. Psychol. 33, 358–369. doi: 10.1002/acp.3502 

    6. Stevens, L. M., Monds, L. A., Riordan, B., Hayre, R. K., & Flowe, H. D. (2023). Acute alcohol intoxication and alcohol expectancy effects on women's memory for consensual and non-consensual sexual activity. Frontiers in psychology13, 1008563. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2022.1008563





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