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Jovens LGBTQIAPN+ e o uso de substâncias psicoativas: o que os dados brasileiros revelam

By CISA 15 Junho 2026

Jovens LGBTQIAPN+ enfrentam, desde a adolescência, um conjunto de experiências marcados por rejeição, discriminação, invisibilidade e falta de suporte em espaços que deveriam ser seguros. Essas experiências deixam marcas e, uma delas, documentada por décadas de pesquisa internacional, é uma maior vulnerabilidade ao uso de substâncias. O que faltava, até agora, eram dados brasileiros que mostrassem como essa realidade se manifesta no Brasil, um país com suas próprias desigualdades estruturais e contexto cultural. Um estudo publicado em 2025 veio preencher essa lacuna, trazendo informações inéditas e necessárias sobre um tema que diz respeito à saúde e a vida de milhões de jovens brasileiros.

O uso de álcool e outras drogas na adolescência é um dos temas mais sensíveis da saúde pública. A adolescência é uma fase da vida marcada por transformações neurológicas, emocionais e sociais que tornam o cérebro mais suscetível aos efeitos das substâncias psicoativas e ao desenvolvimento de padrões de consumo problemáticos que podem se estender pela vida adulta. Quando se trata de jovens pertencentes a minorias sexuais e de gênero, esse risco se torna ainda maior. Pesquisas demonstram que jovens que se identificam como lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queers e outras minorias sexuais e de genêro apresentam alto risco no uso de substâncias e nos transtornos associados (probabilidade de aproximadamente 190% maior de consumir drogas ilícitas)².   

Grande parte dessas pesquisas são de países de alta renda, principalmente dos Estados Unidos e de países da Europa. Um novo estudo publicado em 2025 na International Review of Psychiatry começou a preencher essa lacuna com dados brasileiros e os resultados desta pesquisa merecem atenção¹. Foram analisados dados de 1.492 participantes com idades entre 12 e 21 anos. Dessas, 247 (16,6%) se identificaram como LGBTQIAPN+ e 1.245 (83,4%) como cisgêneros heterossexuais. Os pesquisadores compararam a prevalência ao longo da vida e a idade de início do uso de álcool, tabaco, cannabis e cocaína entre os dois grupos. 

 

Prevalência do uso de substâncias ao longo da vida

Os resultados do estudo revelaram diferenças importantes entre os grupos para o uso de substâncias. O uso de álcool ao longo da vida foi semelhante, relatado por cerca de 84% dos cisgêneros heterossexuais e 86% dos LGBTQIAPN+. As diferenças foram expressivas para as outras substâncias:

  • Tabaco: 48% dos jovens LGBTQIAPN+ relataram uso ao longo da vida, enquanto 36,8% dos cisgêneros heterossexuais relataram o uso. 
  • Cannabis: 40,4% dos LGBTQIAPN+ relataram o uso ao longo da vida, enquanto 27% dos cisgêneros heterossexuais relataram o uso. 
  • Cocaína: 7,4% dos LGBTQIAPN+ relataram o uso ao longo da vida, enquanto 3,6% dos cisgêneros heterossexuais relataram o uso, correspondendo a mais do que o dobro de chances de uso. 

Esses números já são expressivos quando olhamos para o grupo como um todo. Mas a análise se torna ainda mais reveladora quando analisamos os dados pelo sexo que os indíviduos foram designados ao nascer (sexo feminino ou sexo masculino). 

 

O que muda quando olhamos para o sexo feminino?

Um dos achados mais importantes do estudo é que as disparidades foram impulsionadas principalmente pelos participantes designados do sexo feminino ao nascer. Entre os do sexo masculino, as diferenças entre LGBTQIAPN+ e cisgêneros heterossexuais não foram estatisticamente significativas. Já entre as mulheres ao nascer, o contraste é marcante:

  • Tabaco: 49% das jovens LGBTQIAPN+ relataram uso ao longo da vida, enquanto 34,2% das cisgêneras heterossexuais relataram o uso. 
  • Cannabis: 44,3% das jovens LGBTQIAPN+ relataram uso ao longo da vida, enquanto 23,3% das cisgêneras heterossexuais relataram o uso. Representando quase o dobro da chance de uso.
  • Cocaína: 7,4%  das jovens LGBTQIAPN+ relataram uso ao longo da vida, enquanto 2,4% das cisgêneras heterossexuais relataram o uso. Representando mais do triplo da chance de uso.

Quando os dados foram analisados por orientação sexual, participantes bissexuais do sexo feminino apresentaram as maiores chances de uso ao longo da vida de álcool, tabaco, cannabis e cocaína em comparação com mulheres heterossexuais. Participantes lésbicas e outros subgrupos não apresentaram diferenças significativas.  


Início precoce das substâncias 

O estudo identificou que a prevalência ao longo da vida do uso de substâncias aumentou progressivamente com a idade tanto no grupo LGBTQIAPN+ quanto no grupo cisgnênero hterossexual. Entretanto, os participantes LGBTQIAPN+ relataram início mais precoce do uso de álcool, 8,7% relataram uso de álcool aos 10 anos, em comparação com apenas 1,9% dos cisgêneros heterossexuais. 

O uso de de cannabis foi maior entre o grupo LGBTQIAPN+  entre as idades de 14 a 18 anos, 26,5% relataram o uso em comparação com 7,5% no grupo cisgênero heterossexual. O uso de cocaína permaneceu incomum em idades mais jovens, mas aumentou consideravelmente no grupo LGBTQIAPN+ em idades mais avançadas. 

E por que isso importa? Porque a idade de início é um dos principais determinantes do risco futuro. Quanto mais cedo uma pessoa começa a usar substâncias, maior a probabilidade de desenvolver transtornos por uso, comorbidades psiquiátricas e padrões de uso problemático na vida adulta.

 

O que isso significa para a prevenção e para a saúde pública?

Os achados do estudo apontam para a necessidade de estratégias de prevenção que levem em conta as especificidades da população LGBTQIAPN+. As evidências reforçam que jovens LGBTQIAPN+ que sofreram discriminação relacionadas à sua identidade e/ou orientação sexual relatam taxas mais altas de uso de substâncias, o que reforça que enfrentar o estigma e a discriminação estrutural é também uma estratégia de saúde pública. O aprendizado acerca de outras populações vulneráveis reforça que quando não se encontram ajuda ou acolhimento apropriados, as substâncias podem entrar em cena.  

Para o cenário brasileiro, o estudo traz uma contribuição importante ao apresentar dados longitudinais de um país de renda média, como o Brasil, sobre um tema ainda pouco investigado. Seus resultados confirmam uma tendência já observada internacionalmente e mostram que as diferenças no uso de substâncias entre jovens LGBTQIAPN+ não são um fenômeno exclusivo de contextos culturais específicos. 

Os dados apresentados neste texto não têm o objetivo de estigmatizar ou reforçar qualquer tipo de preconceito contra jovens LGBTQIAPN+. Disparidades em saúde não surgem de identidades ou orientação sexual, surgem de um contexto de exclusão, violência e falta de suporte. Dados consistentes como o do estudo apresentado reforçam a importância do acesso a políticas e serviços qualificados do sistema de saúde focados na redução das disparidades enfrentadas pela população LGBTQIAPN+.

 

Additional Info

  • Referências:
    1. Figueiredo CPM, Bezerra HA, Miguel EC, Rohde LA, Salum GA, Pan PM, Caye A. Patterns of substance use and initiation among LGBTQIAPN+ youth in Brazil: Evidence from a population-based cohort. Int Rev Psychiatry. 2025;37(6–7):639–650. doi:10.1080/09540261.2025.2573758
    2. Brown E, Abdelmassih E, Hanna F. Avaliando os determinantes do uso de substâncias em adolescentes LGBTQIA+: uma revisão de escopo. International Journal of Environmental Research and Public Health . 2024; 21(12):1579. doi.org/10.3390/ijerph21121579