A adolescência é um período de maior vulnerabilidade para o início do consumo de substâncias psicoativas, como álcool, tabaco, maconha e, mais recentemente, cigarros eletrônicos. Esses comportamentos se associam a problemas de saúde física e mental, dificuldades escolares e maior risco de dependência na vida adulta. Em paralelo, muitos adolescentes convivem em casa com pais que também consomem essas substâncias, o que levanta a questão: até que ponto o uso dos pais “passa” para os filhos?
O estudo publicado na revista Addictive Behaviors analisou 4.280 díades (pares) formadas por adolescentes de 12 a 17 anos e seus pais ou responsáveis em quatro municípios do estado de São Paulo¹. Os pesquisadores utilizaram uma abordagem estatística chamada análise de classes latentes para identificar perfis de uso de substâncias em pais e adolescentes, considerando álcool, binge drinking (episódios de “beber pesado”), cigarro, maconha e uso de cigarros eletrônicos. Em vez de olhar para cada droga separadamente, o estudo buscou padrões de comportamento, como abstinentes, usuários principalmente de álcool e usuários de múltiplas substâncias.
Foram identificados três grupos principais tanto entre pais quanto entre adolescentes: um grupo abstinente ou de muito baixo consumo, um grupo de maior consumo de álcool e um grupo de poliusuários, com uso combinado de várias substâncias. Entre os pais, cerca da metade se encontrava no grupo de baixo risco, enquanto aproximadamente um em cada oito foi classificado como poliusuário. Entre os adolescentes, a maioria era abstinente, mas um grupo menor apresentava consumo recente de álcool, episódios de binge drinking e uso de outros produtos, incluindo vapes.
Um achado do estudo foi a forte correlação entre os perfis de pais e filhos. Quando os pais eram abstinentes, havia cerca de 90% de probabilidade de o adolescente também não usar substâncias. Por outro lado, quando os pais estavam no grupo de poliusuários, o risco de o adolescente também ser poliusuário era aproximadamente três vezes maior em comparação com filhos de pais abstinentes. Ainda assim, mesmo em famílias em que os pais usavam várias substâncias, mais da metade dos adolescentes permanecia abstinente, mostrando que a transmissão intergeracional não é automática.
Para entender melhor por que alguns adolescentes “escapam” desse padrão de risco familiar, o estudo avaliou o papel dos estilos parentais. Foram considerados quatro estilos clássicos: autoritativo (alto afeto e alta exigência), autoritário (baixa responsividade e alta exigência), permissivo (alto afeto e baixa exigência) e negligente (baixa responsividade e baixa exigência). Esses estilos foram medidos a partir da percepção dos próprios adolescentes sobre o quanto os pais são próximos, dialogam, estabelecem regras e acompanham seu comportamento.
Os resultados mostraram que o estilo autoritativo exerceu um importante efeito de proteção. Entre adolescentes com pais poliusuários, aqueles que percebiam seus cuidadores como autoritativos tinham menor probabilidade de se encaixar no grupo de poliusuários e maior chance de permanecerem abstinentes. Em outras palavras, mesmo quando os pais usam substâncias em níveis elevados, um estilo parental que combina afeto, supervisão e regras claras pode atenuar de forma significativa o risco de uso pesado de múltiplas drogas na adolescência.
O estilo autoritário também mostrou algum efeito protetor em relação ao poliuso, reduzindo a probabilidade de que adolescentes com pais de alto risco se tornassem poliusuários. No entanto, esse estilo se associou a uma maior chance de transmissão específica do consumo de álcool, isto é, aumentou a probabilidade de que filhos de pais que bebem também fossem consumidores de álcool. Já os estilos permissivo e negligente não demonstraram efeitos consistentes de proteção, e em alguns casos as estimativas foram limitadas pelo pequeno número de adolescentes em certas combinações de perfil.
Um aspecto importante é que, mesmo em contextos de estilos parentais considerados mais protetores, o consumo de álcool pelos pais continuou associado ao maior risco de consumo de álcool pelos filhos. Isso sugere que, no caso do álcool, a influência do exemplo e da normalização do uso dentro de casa pode ser particularmente forte, possivelmente porque se trata de uma substância legal, amplamente disponível e socialmente aceita.
Do ponto de vista da saúde pública, o estudo destaca duas mensagens. Primeiro, os padrões de uso de substâncias são, em parte, “herdados” dentro das famílias, tanto no sentido do risco quanto da proteção. Pais abstinentes ou de baixo consumo tendem a ter filhos que também não usam drogas, evidenciando que comportamentos saudáveis podem se transmitir entre gerações. Segundo, mesmo quando há uso de risco por parte dos pais, estilos parentais mais estruturados, com presença, afeto e limites claros, podem reduzir a probabilidade de que os adolescentes desenvolvam padrões de poliuso.
Esses achados reforçam a importância de programas de prevenção que envolvam as famílias, e não apenas os adolescentes. Intervenções que fortalecem habilidades parentais, promovem o diálogo, estimulam regras consistentes e abordam crenças sobre o consumo de álcool e outras drogas podem ter impacto relevante na redução do uso de substâncias entre jovens. Ao mesmo tempo, o estudo lembra que políticas e ações voltadas a reduzir o consumo de risco entre adultos também beneficiam indiretamente a próxima geração.
Em síntese, o artigo mostra que:
- Há forte alinhamento entre os perfis de uso de substâncias de pais e filhos, especialmente no caso da abstinência.
- Pais poliusuários aumentam o risco de poliuso entre adolescentes, mas esse risco não é inevitável.
- Estilos parentais autoritário e, em parte, autoritário podem atenuar a transmissão intergeracional do poliuso, embora não eliminem o efeito do consumo de álcool dos pais sobre o consumo de álcool dos filhos.
- A combinação entre exemplo dos pais e qualidade da relação e supervisão parece crucial para entender por que alguns adolescentes usam substâncias enquanto outros, em contextos semelhantes, permanecem abstinentes.
Informar pais, educadores e gestores sobre esses mecanismos é fundamental para o desenvolvimento de políticas e programas mais eficazes de prevenção do uso de álcool e outras drogas na adolescência.







