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Álcool e drogas entre jovens: estudo revela padrões de uso e grupos mais vulneráveis no Brasil

By CISA 12 Janeiro 2026

Um estudo recente com mais de 8 mil jovens brasileiros1 revelou que o consumo de álcool e drogas ilícitas no país é mais frequente do que indicavam pesquisas anteriores, especialmente entre homens, jovens com menor escolaridade e aqueles que relatam experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo. Os dados reforçam o papel central do álcool nos padrões de policonsumo e apontam para a urgência de estratégias de prevenção e redução de danos mais sensíveis às desigualdades sociais e às vulnerabilidades específicas da juventude.

O consumo de álcool entre jovens e adolescentes representa um relevante problema de saúde pública em âmbito global, associado a maior exposição a comportamentos de risco e a diversas consequências negativas à saúde como a prática de sexo desprotegido, o aumento das taxas de gravidez na adolescência, o maior risco de desenvolvimento de dependência do álcool na vida adulta, a ocorrência de mortes por causas traumáticas e prejuízos no desempenho cognitivo e escolar.

Pesquisas em diferentes países, sobretudo em nações de alta renda, têm indicado uma tendência de redução do consumo de álcool entre jovens da geração Z, atribuída tanto ao aumento da abstenção nessa faixa etária quanto à diminuição dos níveis de consumo entre aqueles que bebem2

No Brasil, dados do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III)3 mostraram que, entre adolescentes de 14 a 17 anos, houve redução consistente tanto na prevalência do consumo de álcool ao longo da vida quanto no uso no último ano ao longo das três edições do levantamento. Apesar dessa tendência, mais da metade da população brasileira (56%) experimentou álcool antes da idade legal (18 anos), e cerca de um em cada quatro adolescentes (25,5%) iniciou o consumo regular ainda nessa fase. Além disso, o estudo observou uma diminuição significativa do consumo episódico excessivo (cinco doses ou mais em uma única ocasião), ao mesmo tempo em que se registra aumento na prevalência do consumo pesado de álcool (60 gramas ou mais em uma ocasião) entre menores de idade, evidenciando a persistência de padrões de consumo de maior risco.

Nesse sentido, um estudo publicado recentemente na Scientific Reports1 analisou a prevalência e os fatores associados ao uso de álcool e drogas ilícitas entre jovens brasileiros de 16 a 25 anos. O estudo utilizou um desenho transversal multicêntrico, com coleta de dados realizada entre 2016 e 2017 em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal. 

Participaram 8.581 jovens, recrutados principalmente em unidades da Atenção Primária à Saúde. As informações foram obtidas por meio de entrevistas presenciais estruturadas, conduzidas por profissionais treinados, abordando uso de álcool e drogas ilícitas ao longo da vida e nos 12 meses anteriores, além de variáveis sociodemográficas, educacionais, econômicas e comportamentais. 

Os resultados do estudo mostraram que 71,6% dos jovens entrevistados relataram consumo de álcool ao longo da vida; 66,5% relataram ter consumido no último ano. Cerca de 30% já haviam utilizado alguma droga ilícita, com destaque para a cannabis (27,4%), seguida da cocaína (9,9%). Além disso, o estudo identificou diferenças importantes por gênero, com homens apresentando prevalências mais altas para todas as substâncias analisadas: álcool 77,8%; cannabis 37,3%. Um outro achado importante foi a forte associação entre consumo de álcool e uso de drogas ilícitas, reforçando o papel do álcool  nos padrões de policonsumo entre jovens. Por exemplo, o uso de cannabis foi 36,2% entre consumidores de álcool vs. 5,3% entre não consumidores.

Com relação aos padrões de frequência, cerca de 23% dos jovens relataram uso de álcool mais de uma vez por semana, evidenciando um padrão regular de consumo. No caso da cannabis, observa-se uma proporção relevante de uso diário, especialmente entre homens. Embora o uso de outras drogas ilícitas, como cocaína, alucinógenos e inalantes, seja mais esporádico, esses padrões continuam associados a riscos importantes, sobretudo quando combinados ao consumo de álcool.

Outros fatores associados apontados no estudo foram o status de relacionamento: participantes sem parceiro(a) apresentaram taxas mais altas de uso de álcool e alucinógenos. Além disso, foi observado maior vulnerabilidade entre jovens que relataram experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo, que apresentaram prevalências mais altas de uso de todas as substâncias. E do ponto de vista socioeconômico, o estudo revelou que jovens de classes econômicas mais altas consomem mais álcool, enquanto a baixa escolaridade esteve fortemente associada ao uso de drogas mais danosas, especialmente cocaína, com razões de prevalência maiores às observadas entre jovens com maior nível educacional. 

Apesar de sua relevância, o estudo apresenta limitações. O delineamento transversal impede inferências causais, e a amostra restrita a jovens atendidos em serviços de saúde nas capitais limita a generalização dos achados. Além disso, a ausência de dados sobre intensidade do consumo ou dependência restringe análises sobre gravidade, embora as entrevistas presenciais possam ter reduzido vieses de subnotificação.

Contudo, o estudo oferece evidências de que o uso de álcool e drogas ilícitas entre jovens brasileiros é elevado e desigual, afetando de forma mais intensa determinados grupos sociais. Os achados reforçam a necessidade de estratégias de prevenção e redução de danos mais direcionadas, que considerem gênero, escolaridade, contexto social e diversidade sexual.



Additional Info

  • Referências:

     1. Brito E, Bessel M, Kops NL, Albrechet-Souza L, Moreno F, Koskan A, et al. Prevalence and factors associated with alcohol and illicit drug use among Brazilian youth: a multicenter cross-sectional study. Scientific Reports [Internet]. 2025 Dec 4 [cited 2025 Dec 15]; Available from: https://www.nature.com/articles/s41598-025-31026-w_reference.pdf

    2. Doyle, Anne. "Decline in alcohol use among young people: potential consequences for public health policy, legislation, and discourse." Drugnet Ireland (2022): 10-13. https://www.drugsandalcohol.ie/37095/   

    3. Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). (2025). Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III): Caderno Temático - Resultados Consumo de Álcool na População Brasileira. UNIFESP.

     

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