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Zolpidem e Álcool: Da Mistura Perigosa ao Risco de Dependência

By CISA 06 Janeiro 2026

O uso concomitante de álcool e drogas Z, como o zolpidem, apresenta riscos significativos para a saúde que vão além da interação imediata com o álcool, estendendo-se à vulnerabilidade do paciente para o desenvolvimento de problemas com substâncias a longo prazo.

As chamadas drogas Z são uma classe de medicamentos amplamente utilizada no tratamento a curto prazo da insônia e de outros distúrbios do sono.1 Esse termo engloba fármacos como o zolpidem, zopiclona e eszopiclona. Originalmente, elas foram desenvolvidas como alternativas aos benzodiazepínicos, com a intenção de oferecer o efeito sedativo-hipnótico  com menores riscos de dependência e efeitos colaterais. No entanto, evidências recentes desafiam essa percepção de segurança, sugerindo que o perfil de risco para o desenvolvimento subsequente de problemas com álcool e drogas é comparável entre quem inicia o tratamento com benzodiazepínicos e quem inicia com drogas Z.2

O mecanismo de ação das drogas Z envolve a estimulação seletiva dos receptores GABA-A no cérebro. Esse efeito amplifica a atividade do neurotransmissor GABA, inibindo a excitabilidade dos neurônios e induz o sono.3 Contudo, estudos indicam que essa modulação alostérica dos receptores GABA-A também afeta circuitos neurais envolvidos nos efeitos comportamentais de drogas de abuso, como os sistemas de recompensa e reforço. Esse mecanismo é compartilhado pelo álcool, que também aumenta a atividade do receptor GABA-A, o que ajuda a explicar a potencial transição do uso médico para o uso indevido ou a combinação perigosa entre as substâncias.

O uso concomitante de álcool e medicamentos Z, como o zolpidem, apresenta riscos imediatos e severos. Como o álcool potencializa os efeitos sedativos dessas drogas, o uso combinado pode resultar em sedação excessiva e depressão respiratória. Segundo a FDA, essa mistura aumenta a ocorrência de comportamentos complexos durante o sono, nos quais o indivíduo pode caminhar, dirigir ou realizar outras atividades enquanto está inconsciente (sonambulismo), sem memória posterior do evento (amnésia). Por isso, atividades que exijam atenção plena devem ser evitadas, e a mistura com álcool é contraindicada.4

Além dos perigos imediatos da interação, novas evidências apontam que o próprio início do tratamento com Zolpidem pode ser um ponto de virada para a saúde do paciente a longo prazo. Um estudo abrangente de 20252 indicou que pacientes que iniciam o uso de drogas Z apresentam um risco aumentado, cerca de duas vezes maior para problemas com drogas e 1,5 vezes maior para problemas com álcool, em comparação aos que não usam a medicação. Esse risco existe mesmo em pessoas sem histórico anterior de dependência e está associado a desfechos graves, que incluem não apenas o transtorno de uso de substâncias, mas também intoxicações não intencionais, óbitos e infrações criminais suspeitas relacionadas ao uso de substâncias. 

Para minimizar os riscos, a ANVISA alterou em 2025 o tipo de prescrição do zolpidem, tornando o controle mais rigoroso devido ao risco de dependência e abuso.5 Portanto, é essencial que o uso desses medicamentos seja restrito ao curto prazo e acompanhado de supervisão médica constante. O monitoramento do comportamento do paciente em relação ao uso de substâncias deve ser contínuo, não apenas durante a vigência da prescrição, mas também após o início do tratamento, visando prevenir consequências graves de saúde e sociais.



Additional Info

  • Referências:

    1. FDA Label for Ambien®. Drugs@FDA. https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2008/019908s027lbl.pdf

    2. Wang, X., Chang, Z., Molero, Y., Isomura, K., Fernández de la Cruz, L., Lichtenstein, P., Kuja-Halkola, R., D'Onofrio, B. M., Quinn, P. D., Larsson, H., Brikell, I., Hellner, C., Hasselström, J., Jayaram-Lindström, N., Mataix-Cols, D., & Sidorchuk, A. (2025). Incident benzodiazepine and Z-drug use and subsequent risk of alcohol- and drug-related problems: A nationwide matched cohort study with co-twin comparison. Journal of psychopharmacology (Oxford, England), 2698811251373069. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/02698811251373069

    3. Neumann, E., Rudolph, U., Knutson, D. E., Li, G., Cook, J. M., Hentschke, H., Antkowiak, B., & Drexler, B. (2019). Zolpidem Activation of Alpha 1-Containing GABAA Receptors Selectively Inhibits High Frequency Action Potential Firing of Cortical Neurons. Frontiers in pharmacology, 9, 1523. https://doi.org/10.3389/fphar.2018.01523

    4. Taking Z-drugs for Insomnia? Know the Risks. U.S. Food and Drug Administration. September 9, 2020. https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/taking-z-drugs-insomnia-know-risks

    5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. (2024, 17 de abril). Medicamento zolpidem terá alteração no tipo de receita para prescrição e venda.

     

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