Lesões hepáticas causadas pela COVID-19 representam risco, principalmente para pessoas com doenças pré-existentes do fígado.

Desde o fim de 2019, o surto de coronavírus [SARS-CoV-2], que começou em Wuhan, na China, e disseminou-se mundo afora, representa uma grave ameaça à saúde humana. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) contabilizam 1.133.758 casos confirmados de COVID-19 e 62.784 mortes causadas pela doença no mundo até o dia 5 de abril de 20201. Muitos casos de COVID-19 resolvem-se rapidamente, mas a doença também pode ser fatal, com uma taxa de mortalidade em torno de 3%. Os sintomas graves da doença que podem levar à morte são o dano alveolar (nos pulmões) e a insuficiência respiratória progressiva. Entretanto, há outros sintomas que também são graves e foram reportados em pacientes com COVID-19, como as lesões hepáticas. Esses sintomas podem representar um risco adicional a pacientes portadores de doenças crônicas no fígado, como alerta artigo recente publicado na revista científica The Lancet2. Tais lesões já haviam sido reportadas em pacientes infectados com outros vírus da família SARS-CoV, que causam a SARS e a MERS, e estiveram presentes em 60% dos casos de SARS3.

Dados do Quinto Centro Médico do Hospital Geral PLS, Pequim, China, indicam que 2–11% dos pacientes com COVID-19 apresentavam comorbidades hepáticas. Além disso, de 14 a 53% dos casos relataram níveis anormais das enzimas hepáticas alanina aminotransferase e aspartato aminotransferase (AST), durante a progressão da doença, apontando que os danos provocados pelo vírus não se restringem àqueles que possuíam doenças pré-existentes do fígado. As taxas mais altas de disfunção hepática ocorreram entre pacientes com COVID-19 grave. Em outro estudo publicado na The Lancet3, elevações de AST foram observadas em oito (62%) dos 13 pacientes em uma unidade de terapia intensiva (UTI) chinesa em comparação com sete (25%) de 28 pacientes que não necessitaram de cuidados na UTI.

As lesões hepáticas em pacientes com COVID-19 podem ser causadas diretamente pela infecção viral das células hepáticas. Aproximadamente 2 a 10% dos pacientes com COVID-19 apresentam diarreia, e o RNA da SARS-CoV-2 foi detectado em amostras de fezes e sangue, o que evidencia a possibilidade da presença viral no fígado. Porém, além do próprio vírus, também é possível que a insuficiência hepática se deva à hepatotoxicidade dos medicamentos utilizados para combater a infecção, e pela inflamação mediada pelo sistema imunológico, com o aumento súbito e intenso de substâncias inflamatórias e diminuição de oxigênio associada à pneumonia, ambas podendo contribuir para a lesão hepática ou até evoluir para insuficiência hepática em pacientes com COVID-19 que estão gravemente enfermos. Já a lesão hepática em casos leves de COVID-19 é frequentemente transitória e pode retornar ao normal sem nenhum tratamento especial.

Essas constatações representam uma ameaça para pessoas com doenças crônicas do fígado. A doença hepática crônica representa uma grande carga de doenças em todo o mundo. Doenças hepáticas (incluindo hepatite viral crônica, doença hepática gordurosa não alcoólica e doença hepática relacionada ao álcool) afetam aproximadamente 300 milhões de pessoas na China. No Brasil, dados do Ministério da Saúde4 apontam que a cirrose e outras condições crônicas do fígado são a sexta maior causa de mortalidade por causas não-transmissíveis no país, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares, câncer, diabetes, doenças crônico-respiratórias e transtornos neurológicos. Nota-se ainda, que pacientes com doença hepática avançada podem ter um agravamento de sua função hepática em qualquer outra situação infecciosa, metabólica ou de hipóxia por outras causas que os levem à UTI. Assim, é preciso investigar de modo mais aprofundado o quanto as condições hepáticas pré-existentes influenciam na lesão hepática em pacientes com COVID-19. A prevenção de infecção por SARS-CoV-2 nessa população é uma tarefa desafiadora e medidas específicas precisam ser tomadas para tratar desses pacientes, tal como adverte outro artigo recentemente publicado na The Lancet5. As principais precauções enviadas a pacientes ambulatoriais de um hospital de Wuhan, China, portadores de cirrose hepática, foram:

  • Evitar visitas;
  • Evitar a saída; usar equipamento de proteção (luvas, máscara, chapéu) corretamente se for inevitável sair, especialmente em locais com grande circulação ou densidade de pessoas;
  • Ao voltar para casa, trocar a roupa, lavar bem as mãos e o rosto (incluindo olhos, narinas e ouvidos);
  • Lavar as mãos antes e depois das refeições por pelo menos 20 segundos;
  • Abrir janelas e ventilar o quarto duas vezes por dia por 15 a 30 minutos;
  • Comer uma dieta leve e equilibrada com alimentos predominantemente macios;
  • Enfrentar o desafio com serenidade e cautela, exercitando-se adequadamente;
  • Monitorar a pressão sanguínea, a frequência cardíaca e o volume de urina, especialmente para aqueles que tomam bloqueadores β não-seletivos como prevenção secundária;
  • Tomar os medicamentos recomendados pelo seu médico;
  • Intervalos entre exames podem ser estendidos, se necessário;
  • Comprar os medicamentos necessários online depois de entrar em contato com seu médico por vias remotas (telefone, Whatsapp);
  • Se o paciente tiver alguma dúvida ou não estiver se sentindo bem, entrar em contato com seu médico por vias remotas.

Chegou o nosso novo Panorama 2020!

Pesquisa da Fiocruz aponta que 18% dos respondentes relataram ter aumentado seu consumo de álcool durante a pandemia. A elevação do consumo estaria relacionada principalmente às mudanças no estado de ânimo da população durante o período, sobretudo à frequência dos sentimentos de tristeza e depressão.

Riscos de contaminação por coronavírus para pacientes em tratamento psiquiátrico.

Pesquisas discutem sobre a definição de ressaca e a importância da alcoolemia zero para os testes cognitivos e psicomotores.

Seu consumo de bebidas alcoólicas mudou durante a quarentena?

Acesse: https://bit.ly/PesquisaCISA e participe da pesquisa do CISA.

É rapinho: cerca de 3 minutos! Queremos entender se houve mudanças no uso de álcool nesse período e sua participação é muito importante. Nossa pesquisa é anônima, confidencial e não-científica. Participe e compartilhe!

Veja os principais dados sobre uso de álcool por estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos. Entre alunos do 9o ano do Ensino Fundamental, o consumo precoce subiu de 50% em 2012 para 55,5% em 2015.

Em 2001 o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) realizou uma pesquisa domiciliar de caráter nacional em 107 cidades brasileiras com população superior a 200.000 habitantes na faixa etária compreendida entre 12 e 65 anos. A pesquisa teve como principal objetivo estimar pela primeira vez no país a prevalência do uso ilícito de drogas, de álcool, de tabaco e o uso não médico de medicamentos psicotrópicos e esteróides anabolizantes. Os resultados encontram-se em um relatório intitulado Primeiro Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil.1,2,3,4,5.

Pesquisa online conduzida pela OPAS em 33 países da América Latina e Caribe avalia o que mudou nos hábitos de consumo de álcool com a pandemia.

À medida que a pandemia de COVID-19 se espalhou por todos os países da região das Américas, os governos ordenaram o fechamento obrigatório de todos os serviços e empresas não essenciais. Em alguns países, as bebidas alcoólicas foram consideradas bens essenciais, enquanto outros proibiram completamente sua venda. Como esperado, o consumo de álcool mudou do âmbito público (bares, festas, restaurantes, lojas de bebida) para o privado (residências). Além desta mudança importante, a intensificação dos sentimentos de ansiedade, medo, depressão, tédio e incerteza, ocasionados pela pandemia, pode ter afetado o consumo de álcool das pessoas.

Com o objetivo de estimar o impacto da pandemia no hábito de beber, pesquisa feita pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) incluiu 55 perguntas sobre dados demográficos, medidas de prevenção à COVID-19, impactos na saúde mental (nos últimos 14 dias), e consumo de álcool antes e durante a pandemia. Elas foram respondidas por 12.328 pessoas com 18 anos de idade ou mais, residentes dos 33 países da América Latina e Caribe, sendo o Brasil o país com maior número de respondentes (3.799, 30,8% do total). A OPAS destaca que a amostra da pesquisa não é representativa da população residente na região estudada, e constitui um limite ao alcance e generalização dos resultados da pesquisa.

Em todas as regiões, a prevalência de consumo de álcool foi maior em 2019 (75,8%) do que durante a pandemia (63,4%). O Cone Sul, sub-região em que se encontra o Brasil, registrou o maior índice de consumo de álcool antes e depois da pandemia: foi de 81,4% para 73,8%. No entanto, é importante notar que o período de cobertura da pesquisa sobre o ano de 2019 foi de 12 meses, enquanto para o ano de 2020, o período de cobertura restringiu-se aos primeiros 4 meses da pandemia (março a junho). Portanto, os dados de 2020 não refletem a prevalência anual de consumo, mas sim, a prevalência durante o período avaliado da pandemia. Feita esta observação, a pesquisa mostra também que o tipo de bebida mais consumida foi a cerveja, tanto antes (52,3%) quanto durante a pandemia (48,7%), seguida pelo vinho, cujo consumo aumentou de 21,8% em 2019 para 29,3% durante a pandemia em todas as regiões, e de 28,2% para 38,1% no Cone Sul.

Outra preocupação despertada durante a pandemia, por conta do fechamento de bares e lojas de bebida, foi com o aumento da venda e consumo de álcool ilegal. Os dados da pesquisa também mostraram que apesar do consumo de destilados e bebidas preparadas em casa ser maior em 2019 do que durante a pandemia, a frequência do consumo de álcool ilegal/informal aumentou durante a pandemia de 2,2% para 4,9% mensalmente; de 1,9% para 3,0% semanalmente e 0,4% para 0,6% diariamente.

No que diz respeito ao Beber Pesado Episódico (BPE), definido como o consumo de 60 g ou mais de álcool puro em pelo menos 1 ocasião no último mês, 11,2% dos participantes relataram um aumento em sua frequência, 27,1% relataram diminuição e 61,6% não relataram mudança na frequência durante a pandemia. Dentre aqueles que aumentaram sua frequência de BPE, a maior parcela esteve situada no Cone Sul (15%) e o índice dos homens foi maior do que o das mulheres em todas as sub-regiões. As pessoas mais jovens (18-39 anos) destacaram-se como as que mais praticaram BPE tanto em 2019 como durante a pandemia, sendo que 35% daqueles com idade entre 30 e 39 anos foram as que mais relataram aumentar a frequência de BPE, ao passo que aqueles com 18 a 29 anos foram os que mais diminuíram a frequência deste comportamento (40,8%). Apesar dos altos índices de BPE, a procura por ajuda tanto em 2019 como durante a pandemia foi muito baixa (0,4% e 0,3%) entre os que reportaram a prática. Uma pequena parcela tentou reduzir seu próprio consumo de álcool sozinho, sendo 10,2% em 2019 e 7,4% durante a pandemia.

A pandemia COVID-19 também teve muitos impactos na saúde mental da população. É normal e compreensível que os indivíduos fiquem mais propensos a sentir medo, preocupações, estresse, nervosismo, ansiedade e inquietação quando se deparam com a incerteza típica de crises como esta. A pesquisa mostrou que 52,8% dos respondentes relataram ao menos 1 sintoma emocional, sendo mais frequente entre mulheres. No geral, 36% da amostra total apresentou de 1 a 4 sintomas/sentimentos emocionais com frequência (quase todos os dias). A pesquisa também demonstrou associação entre o relato desses sentimentos e o consumo de álcool: aqueles que reportaram maior número de sintomas emocionais também apresentaram maior prevalência de consumo de álcool e de BPE durante a pandemia. O BPE também foi mais frequente entre as pessoas com maior renda familiar.

Apesar da frequência aumentada de sintomas emocionais durante a pandemia, a pesquisa aponta que o BPE não se alterou de forma significativa nesse período. De todo modo, na medida em que representa um grande risco à saúde, passível de agravar os problemas relativos à COVID-19 e associado a sintomas emocionais, a OPAS endossa a importância de medidas restritivas à disponibilidade e acesso ao álcool, intervenções para melhorar a saúde mental das pessoas, e informações qualificadas sobre álcool e COVID-19 que se estendam ao período pós-pandemia.

Para saber mais sobre o consumo de álcool durante a pandemia, veja também outros textos do nosso site:

https://cisa.org.br/index.php/pesquisa/artigos-cientificos/artigo/item/250-convid-pesquisa-de-comportamentos-da-fiocruz

https://cisa.org.br/index.php/sua-saude/informativos/artigo/item/245-alcool-e-covid-19-o-que-voce-precisa-saber-segundo-oms

https://cisa.org.br/index.php/sua-saude/informativos/artigo/item/253-por-que-controlar-consumo-de-alcool-durante-quarentena

 

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