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Álcool e Antidepressivos: Uma Mistura que Engana o Cérebro

By CISA 25 Fevereiro 2026

Nas últimas décadas, o uso de antidepressivos cresceu significativamente, acompanhado de um hábito muito comum em nossa cultura: o consumo de bebidas alcoólicas. Muitas vezes, essa combinação acontece porque a ansiedade e a depressão coexistem com o uso de substâncias, criando um ciclo no qual o paciente busca no álcool um alívio imediato para o seu sofrimento emocional.1 No entanto, estudos mostram que essa interação é muito mais complexa e perigosa do que uma simples perda de efeito do medicamento.2

 

Um dos achados mais intrigantes sobre essa mistura é como a interação de álcool e antidepressivos altera a percepção do prazer.2 Quando uma pessoa consome álcool sob o efeito de certos antidepressivos, como os inibidores da recaptação de serotonina (ex., fluoxetina, sertralina e escitalopram), ela pode não sentir a euforia ou o relaxamento típicos da embriaguez. Esse fenômeno, chamado de “prazer embotado”, é uma armadilha perigosa.2  Como o indivíduo não sente o efeito da bebida, ele tende a beber volumes muito maiores para tentar alcançar a sensação desejada. O resultado é um risco maior de intoxicação e danos à saúde, muitas vezes sem que a pessoa perceba o perigo imediato, já que o mal-estar nem sempre aparece na hora.

Para além das sensações subjetivas, o corpo sofre impactos físicos silenciosos e profundos.1 O fígado, responsável por processar tanto a medicação quanto o álcool, pode dar sinais de sobrecarga. Somado a isso, o álcool pode aumentar os efeitos colaterais dos antidepressivos no sistema nervoso central, tais como sonolência e tontura.3 O álcool também pode reduzir a resposta ao antidepressivo e à adesão do paciente, equanto promove a impulsividade, podendo aumentar o risco de suicídio.

A biologia e o comportamento também mostram nuances diferentes entre homens e mulheres. No público feminino, a depressão costuma estar ligada a um consumo de álcool mais elevado, independentemente de estarem ou não medicadas.4 Já entre os homens, o uso do antidepressivo parece ajudar a reduzir o desejo de beber, sugerindo uma resposta positiva ao tratamento ou às orientações médicas. No entanto, a regra de ouro para ambos é a mesma: a orientação médica e a honestidade com o seu tratamento. Ocultar o hábito de beber dificulta o ajuste das doses e coloca em risco a eficácia do tratamento psiquiátrico, tornando essencial uma abordagem que cuide tanto da mente quanto do corpo de forma integrada.

Nota: Este texto é informativo e baseia-se em estudos científicos. Não substitui o aconselhamento médico profissional.

 

Additional Info

  • Referências:
    1. Mușat MI, Militaru F, Udriștoiu I, Mitran SI, Cătălin B. Alcohol Consumption Is a Coping Mechanism for Male Patients with Severe Anxiety Disorders Treated with Antidepressants Monotherapy. J Clin Med [Internet]. 2024;13(9):2723. Disponível em: https://doi.org/10.3390/jcm13092723
    2. Helle AC, Wycoff AM, Griffin SA, Fleming M, Freeman LK, Vebares TJ, et al. Co-use of medication and alcohol: The influence on subjective effects of intoxication and affect. Personal Disord [Internet]. 2022;;13(1):75–83. Disponível em: https://doi.org/10.1037/per0000480
    3. Antidepressants and Alcohol Interactions. Drugs.com. Accessed November 2, 2021. https://www.drugs.com/article/antidepressant-medications-alcohol.html
    4. Graham, K., & Massak, A. (2007). Alcohol consumption and the use of antidepressants. CMAJ : Canadian Medical Association journal=journal de l'Association medicale canadienne, 176(5), 633–637. https://doi.org/10.1503/cmaj.060446

     

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