Pesquisas sobre os efeitos biológicos dos análogos do GLP-1 (semaglutida, tirzepatida, liraglutida), as “canetas para perda de peso”, no consumo de álcool têm se consolidado como uma área científica relevante, devido ao impacto global do transtorno por uso de álcool (TUA) associado a elevada morbimortalidade em escala mundial.1,2 Embora estes agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1RAs) tenham sido originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, os estudos apontam que esses fármacos também podem atuar sobre circuitos neurobiológicos envolvidos na regulação do sistema recompensa, despertando interesse quanto ao seu papel em comportamentos aditivos.1,2
Estudos pré-clínicos realizados nos últimos anos demonstraram uma diminuição do consumo de álcool em modelos animais, enquanto pesquisas clínicas mais recentes têm avaliado a viabilidade translacional desses achados.3,4 O interesse clínico e social nesse campo é reforçado pelas limitações de eficácia e pela baixa adesão às terapias farmacológicas atualmente disponíveis para os transtornos por uso de álcool, bem como pelas elevadas taxas de recaída observadas mesmo após o tratamento.5,6
No entanto, o principal desafio está na compreensão ainda limitada dos mecanismos biológicos e da eficácia clínica dos análogos do GLP-1 na redução do consumo de álcool, especialmente em humanos.7,8 Embora os achados pré-clínicos sejam consistentes e promissores, os resultados provenientes de ensaios clínicos permanecem heterogêneos e, em muitos casos, preliminares, com evidências de benefício restritas a subgrupos específicos, como indivíduos com obesidade, por exemplo.5,9
A literatura ainda apresenta divergências quanto à ocorrência de possíveis efeitos adversos neuropsiquiátricos, bem como em relação às diferenças entre os distintos agonistas do receptor de GLP-1 no que diz respeito à modulação de comportamentos associados ao consumo de álcool.1,10 Essas incertezas reforçam uma lacuna de conhecimento limitada pela disponibilidade de ensaios clínicos randomizados de grande escala, pela compreensão ainda incompleta de outros mecanismos envolvidos e pela variabilidade dos achados entre diferentes perfis de pacientes.7,11,12
Como atuam os análogos de GLP-1?
Os análogos do GLP-1, ou agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RAs), atuam por meio de mecanismos integrados que envolvem efeitos metabólicos periféricos e modulação central de circuitos neurais. Fisiologicamente, o GLP-1 é um hormônio intestinal liberado em resposta à ingestão alimentar, promovendo aumento da secreção de insulina dependente da glicose, inibição do glucagon, retardo do esvaziamento gástrico e redução da ingestão alimentar, o que fundamenta seu uso no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Evidências indicam que os GLP-1R também exercem efeitos no sistema nervoso central, seja por atravessarem a barreira hematoencefálica, seja por vias mediadas pelo nervo vago, atuando em regiões envolvidas na homeostase energética, motivação e recompensa.13,14
Receptores de GLP-1 estão distribuídos em áreas cerebrais como o hipotálamo, tronco encefálico, área tegmental ventral e núcleo accumbens, onde sua ativação modula a neurotransmissão dopaminérgica mesolímbica e reduz o valor reforçador de estímulos naturais e de substâncias psicoativas. No contexto dos comportamentos aditivos, estudos pré-clínicos demonstram que a sinalização do GLP-1 está associada à diminuição da resposta hedônica, do comportamento de busca por reforço e do consumo de álcool. Embora mecanismos adicionais, como modulação neuroinflamatória e de sistemas de estresse, tenham sido propostos, sua relevância clínica em humanos ainda permanece a ser estabelecida.13,14
Considerações finais
Em resumo, os análogos do GLP-1 surgem como uma possível estratégia farmacológica promissora para o tratamento do transtorno por uso de álcool, em razão de sua capacidade de modular circuitos neurais envolvidos no sistema recompensa, motivação e comportamento de busca por substâncias. Evidências pré-clínicas demonstram uma redução do consumo de álcool e atenuação da resposta hedônica (recompensa imediata), oferecendo uma base mecanística plausível para seu potencial terapêutico.
Contudo, a aplicação clínica dos agonistas do receptor de GLP-1 no tratamento do transtorno por uso de álcool ainda deve ser considerada experimental. Os estudos em humanos apresentam resultados heterogêneos e, em geral, preliminares, com benefícios possivelmente restritos a subgrupos específicos, além de persistirem incertezas quanto à segurança a longo prazo e às diferenças entre os fármacos dessa classe. Assim, a consolidação dessa abordagem depende de ensaios clínicos randomizados de grande escala que definam sua eficácia, segurança e indicações clínicas mais precisas.







