Padrões de consumo de álcool - literatura científica

2 julho, 2004

Conheça os principais padrões de consumo de álcool mencionados na literatura científica.

A compreensão dos efeitos potenciais do consumo de álcool, sejam eles benéficos ou prejudiciais, é aspecto importante da prevenção dos danos associados ao uso dessa substância. A elaboração dos padrões de consumo é feita levando em conta tanto aspectos médicos quanto psicossociais do uso de álcool. A finalidade dessas diretrizes é a de informar o público em geral de maneira clara e objetiva quanto ao uso de álcool e suas repercussões no indivíduo e na sociedade. Assim, a criação de padrões de consumo de álcool torna-se prática de grande importância na medida em que cria diretrizes que possibilitam a predição dessas consequências. Segue abaixo os principais padrões de consumo de álcool mencionados na literatura científica:

Uso Moderado de Álcool

O uso moderado de bebidas alcoólicas é um conceito difícil de definir na medida em que ele transmite idéias diferentes para pessoas diferentes. Comumente essa definição é confundida com beber socialmente, que significa o uso de álcool dentro de padrões aceitos pela sociedade. Ademais, com frequência a moderação é vista de maneira errônea como uma forma de uso de álcool que não traz consequências adversas ao consumidor.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), no documento intitulado “Self-help strategies for cutting down or stopping substance use: a guide (2010)”, informa que não existe um nível seguro para o consumo de álcool. Se a pessoa bebe, há risco de problemas de saúde e outros, especialmente se:

• Bebe mais de 2 doses* por dia;
• Não deixa de beber pelo menos dois dias na semana.

A OMS ainda esclarece que em algumas situações, o uso do álcool não é recomendado nem em pequenas quantidades. Dentre elas se encontram:

. Mulheres grávidas ou tentando engravidar
. Pessoas que planejam dirigir ou que estão realizando tarefas que exijam alerta e atenção como a operação de uma máquina
. Pessoas em uso de medicações
. Pessoas com condições clínicas que podem ser pioradas com o uso do álcool como a hipertensão e o diabetes
. Alcoolistas em recuperação
. Menores de 18 anos

O Departamento Americano de Saúde e Serviços Humanos e o Departamento Americano de Agricultura por meio de seu guia em saúde e alimentação2 esclarecem que as bebidas alcoólicas fornecem calorias, mas pouco ou quase nenhum nutriente.

Além deste aspecto, o guia enfatiza que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode produzir efeitos maléficos como a pressão alta, derrames, doenças cardiovasculares, alguns tipos de cânceres, acidentes, violência, suicídio, defeitos congênitos, cirrose hepática e inflamação do pâncreas. O guia sugere que o indivíduo que quiser beber deve fazê-lo com moderação, sendo que um dos efeitos benéficos do consumo moderado é a diminuição do risco de problemas coronarianos. O guia define moderação como não mais que uma dose diária de bebida alcoólica para as mulheres e não mais que duas doses para os homens.

De acordo com o guia, não devem beber:

. Crianças e adolescentes
. Indivíduos de qualquer idade que não conseguem fazer apenas um uso moderado de álcool. Especial atenção deve ser feita a alcoolistas em recuperação e a indivíduos que tenham familiares com problemas relacionados ao álcool
. Mulheres grávidas
. Indivíduos que planejam dirigir ou se envolver em atividades que seja necessário estar atento e alerta
. Indivíduos em uso de medicação

O National Institute of Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA) utiliza o termo "beber moderado" para se referir ao consumo com limites onde não há prejuízos ao indivíduo e sociedade3. O NIAAA esclarece que o termo "beber moderado" é geralmente utilizado para descrever a quantidade e frequência do uso de álcool quando comparado ao não uso (abstinência) ou o abuso de álcool, mas enfatiza que estas definições podem ser problemáticas por não levarem em conta as possíveis consequências maléficas e benéficas ao individuo decorrentes do uso de álcool a longo prazo.

De acordo com o NIAAA, a definição de consumo moderado pode variar de acordo com o indivíduo e contexto, sendo possível encontrar estudos que falam em consumo moderado de uma dose/dia a 5 doses/dia. O NIAAA aponta que dificuldades relacionadas à definição de uso moderado de álcool é até certo ponto resultado das diferenças individuais, ou seja, a quantidade de álcool que uma pessoa pode consumir sem estar intoxicada varia de acordo com a experiência, tolerância, metabolismo, vulnerabilidade genética, estilo de vida e tempo em que o álcool é consumido (três doses em uma hora produz uma concentração de álcool no sangue muito maior do que três doses no curso de três horas).

* Uma dose-padrão de bebida alcoólica (330 ml de cerveja, 140 ml de vinho ou 40 ml de destilado) contém, aproximadamente, 10g de álcool puro.

Benefícios do uso moderado de álcool

Os benefícios do uso moderado de álcool são assunto de intensa discussão no meio científico. Esse padrão de consumo de álcool está relacionado com uma série de benefícios à saúde. A literatura médica sugere que a moderação está relacionado com a diminuição em geral de mortalidade, com destaque para a diminuição no risco de incidência de doenças cardiovasculares e a diminuição nas perdas cognitivas decorrentes da idade4,5,6.

Em um estudo realizado com 128.934 adultos entre os anos de 1978 e 1985, Klatsky e colegas constataram que os bebedores moderados de álcool, em especial vinho, apresentaram um menor risco de mortalidade do que os bebedores pesados e do que os abstêmios5. Em outro estudo realizado entre 1995 e 2001, Stampfer e colegas (2005) avaliaram a função mental de 12.480 mulheres de idade entre 70 e 81 anos, com follow-up de dois anos para 11.102 das participantes. As participantes que haviam consumido até 15g de álcool por dia apresentaram melhor desempenho na avaliação cognitiva do que as abstêmias. Os pesquisadores notaram que houve uma diminuição da piora ao longo da evolução de 2 anos na amostra4.

Ademais, o uso moderado de bebidas alcoólicas promove redução de estresse e de ansiedade e promove bem-estar7.

Malefícios do uso moderado de álcool

Entretanto, o uso moderado de álcool pode também trazer prejuízos à saúde. De acordo com a literatura médica, a moderação no uso de bebidas alcoólicas pode estar relacionada com o aumento no risco de desenvolvimento de alguns tipos de cânceres, em especial o câncer de mama7. Há estudos também sugerindo que o uso moderado de álcool está relacionado com o aumento no risco de anomalias fetais, com diminuição no peso e tamanho do feto7.

Nota-se, assim, que o uso moderado de álcool pode apresentar tanto consequências benéficas quanto prejudiciais à saúde.

Uso “Binge” de Álcool8

Padrão de uso pesado de álcool por tempo determinado, geralmente por mais de 1 dia. O termo “uso binge de álcool” envolve discussão acerca de sua utilidade tanto para a saúde pública quanto para a pesquisa. Ele se define pelo uso de 5 doses de bebida alcoólica em uma ocasião para homens e 4 doses para mulheres. Sua aplicação vale para a população em geral que faz esse padrão de 5/4 doses de álcool. Contudo, com frequência sua citação está relacionada com subgrupos como os estudantes universitários, mulheres veteranas de guerra e minorias étnicas.

Segundo os proponentes desse termo, a expressão “uso binge” apresenta grande utilidade para a saúde pública. Os aspectos positivos da aplicação desse termo residem em sua capacidade de identificar amostras de alto risco em diferentes idades e gêneros sexuais. Ademais, o termo é sucinto e informativo e sua prevalência é bem documentada com adolescentes e jovens adultos.

Contudo, as críticas ao uso do termo afirmam que essa expressão é restrita na medida em que ele se apóia exclusivamente na quantidade para definir uso inadequado de álcool. Ademais, críticas enfatizam o fato de o termo ter significados diferentes dependendo do contexto. Para os estudantes universitários, uso binge de álcool significa 5/4 ou mais doses de álcool por ocasião, ao passo que para ensaios clínicos ele remete a idéia de embriaguez prolongada.

Ademais, essa definição não leva em conta o tempo gasto para consumir as 5/4 ou mais doses de álcool e o peso do indivíduo que faz essa prática. A medida 5/4 ou mais doses de álcool também, em certos aspectos, não é informativa pois cria um código binário de risco. Ou seja, ou se faz uso binge de álcool ou não se faz. Assim, os riscos existentes entre 0 dose e 5/4 doses ou mais deixam de existir. Desse modo, a literatura sugere as seguintes alternativas para o termo uso binge de álcool:

Termo

Comentários

Uso Pesado Episódico de álcool

Termo mais descritivo, e, possivelmente, a alternativa
menos controversa. No entanto, seu uso fora do contexto acadêmico é muito restrito

Uso pesado de álcool

Mantém o foco no consumo de álcool que oferece riscos de danos.

Uso prejudicial de álcool

Comunica a idéia de que o uso de 5/4 doses ou mais de álcool traz danos e riscos ao indivíduo, o que na maioria dos casos não é verdade.

Uso excessivo de álcool

Comunica a noção de que existe um limite a partir do qual o uso de álcool se torna excessivo ou abusivo, conceito que não se alinha com as definições de uso abusivo e dependência de álcool.

Uma alternativa para essa questão é a de adotar o termo “uso pesado episódico” de álcool para o contexto da pesquisa e “uso de alto risco” para o contexto das intervenções. A primeira alternativa contém a noção de volume elevado e frequência periódica de consumo e se alinha com as normas do Journal of Studies on Alcohol. Contudo, deve-se salientar que o uso de um termo mais coloquial voltado para os subgrupos alvo de intervenções é de bom grado.

Uso Pesado de Álcool9

Padrão de uso de bebidas que excede o uso moderado de álcool ou os padrões de uso de álcool socialmente aceitos. Geralmente é definido em termos do consumo excessivo diário de um certo volume de álcool (ex. três doses por dia) ou pelo uso de uma certa quantidade de bebida alcoólica por ocasião (ex. cinco doses por ocasião, ao menos de 1 vez por semana) ou até mesmo pelo uso diário de álcool.

Additional Info

  • Referencias:

    1. Department of Health and Human Services and the Department of Agriculture. Dietary Guidelines for Americans, 2005 (http://www.health.gov/dietaryguidelines/dga2005/document/default.htm)
    2. U.S. Department of Agriculture / U.S. Department of Health and Human Services. Nutrition and your Health: Dietary Guidelines for Americans. (http://www.health.gov/dietaryguidelines/dga2000/document/choose.htm#sugars)
    3. Gunzerath, L; Faden, V; Zakhari, S; Warren, K. (2004). National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism Report on Moderate Drinking. Alcoholism: Clinical and Experimental Research. Vol. 28(6), 829-847 (www.alcoholism-cer.com/)
    4. Stampfer, M.J.; Kang, J.H.; Chen, J.; Cherry, R.; Grodstein, F. Effects of Moderate Alcohol Consumption on Cognitive Function in Women. New England Journal of Medicine. 352(3):245-253, 2005
    5. Klatsky, A.L.; Friedman, G.D.; Armstrong, M.A.; Kipp. H. Wine, Liquor, Beer, and Mortality. American Journal of Epidemiology, Vol. 158, No. 6, 2003
    6. Kris-Etherton, P.; Eckel, R.H; Howard, B.V.; St. Jeor, S.; Bazzarre, T.L. Lyon Diet Heart Study: Benefits of a Mediterranean-Style, National Cholesterol Education Program/American Heart Association Step I Dietary Pattern on Cardiovascular Disease. Circulation, 103 (13): 2001
    7. National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA) – Alcohol Alert, No 16, 1992. (http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/aa16.htm)
    8. Carey, K.B. Understanding Binge Drinking: Introduction to the Special Issue. Psychology of Addictive Behaviors, vol 15, No.04, 283-286, 2001
    9. Organização Mundial de Saúde (OMS) (http://www.who.int/substance_abuse/terminology/who_lexicon/en/index.html)

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