Ingestão moderada de álcool e proteção cardiovascular: de associações epidemiológicas a mecanismos celulares

18 janeiro, 2013

Revisão científica aponta que o consumo leve/moderado de álcool pode trazer benefícios cardiovasculares.

O consumo pesado do álcool (3-4 ou mais doses¹ por dia) está associado a prejuízos psicossociais e físicos, incluindo infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral. Por outro lado, o uso moderado (1-2 doses/dia) pode estar associado a benefícios cardiovasculares. Estudos epidemiológicos sugerem que o uso regular de álcool em menores quantidades pode reduzir os riscos de isquemia (quando o fluxo sanguíneo é diminuído, interrompido, ou é inadequado para as necessidades do músculo cardíaco), mesmo na presença de fatores de risco coexistentes. Isto também é consistente com pesquisas realizadas em modelos animais, muito aplicados no desenvolvimento de tratamentos para diminuir as lesões de isquemia-reperfusão (I/R) - termo usado para descrever as alterações, funcionais e estruturais, que se tornam aparentes durante o restabelecimento do fluxo sanguíneo após um período de isquemia.

Vale frisar que, mesmo quando consumidas moderadamente, as bebidas alcoólicas podem aumentar a morbidade e mortalidade associadas a determinadas condições de saúde, como: acidente vascular cerebral hemorrágico, lesões hepáticas, risco aumentado para o desenvolvimento de câncer gastrointestinal, de mama e de boca, além de prejuízos psicossociais (direção de veículos automotores sob o efeito do álcool e o absenteísmo, por exemplo).

A partir do exposto acima, pesquisadores revisaram a literatura com os seguintes objetivos: a) verificar evidências sobre a associação do uso de álcool (quantidade ideal, padrão de consumo e tipo de bebida) e redução de riscos cardiovasculares adversos e b) analisar possíveis mecanismos que sustentam os efeitos protetores da ingestão leve e moderada de álcool.

Nas últimas 4 décadas, numerosos estudos epidemiológicos, incluindo várias metanálises, apontaram que o consumo leve/moderado de álcool (0,5 a 2 doses por dia) reduz o risco de doença coronária e acidente vascular cerebral. Esse efeito protetor estaria inicialmente ligado a presença de polifenóis da uva, presentes no vinho e cerveja escura, que possuem importante efeito antioxidante. Os primeiros estudos dão destaque especial ao vinho tinto, mas até o momento não existe um consenso estabelecido na literatura científica de que o vinho tinto possui mais funções cardioprotetoras que outros tipos de bebidas alcoólicas. Inclusive, ainda há controvérsias quanto ao fato de que os polifenóis (e não o álcool per se), seriam os principais responsáveis por esse efeito protetor.

Hoje já é sabido que o padrão de consumo (frequência e quantidade de álcool ingerida) está diretamente relacionado com o risco cardiovascular. O padrão de “curva em J” (em que a taxa de risco cardiovascular é crescente conforme o aumento gradual da ingestão de álcool, porém é menor indivíduos que fazem consumo de pequenas quantidades, como até 2 doses homens e 1 para mulheres, em comparação com abstêmios) é descrito em vários estudos.

Nota-se que o consumo regular de até 2 doses de álcool por dia está associado à redução significativa de infarto do miocárdio entre adultos, mesmo em populações de alto risco, como: fumantes, diabéticos, obesos, dislipidêmicos (quantidades de colesterol acima do normal), entre outros. No entanto, é importante ressaltar as variações de acordo com populações específicas; por exemplo, o consumo diário de 2 ou mais doses de bebidas alcoólicas para mulheres estava associado ao aumento da mortalidade; para homens, este risco é observado para 3 ou mais doses.

Entre os indivíduos que possuem comportamentos saudáveis (por exemplo, que praticam exercícios físicos, não fumantes, com dietas alimentares equilibradas) e que fazem uso moderado de álcool, o risco de infarto do miocárdio pode diminuir de 40 a 50% em alguns trabalhos.

Em relação aos mecanismos cardioprotetores envolvidos, estudos mostram que a ingestão de álcool influencia a atividade de lipoproteínas, coagulação e cascata fibrinolítica, agregação plaquetária, estresse oxidativo, sensibilidade à insulina e função endotelial. O consumo moderado tem efeitos diretos sobre os cardiomiócitos (fibra muscular cardíaca), bem como efeitos vasculares e extra-cardíacos, que influenciam fortemente o risco de doença cardíaca coronária (Figura 1).

Figura 1. O espectro de efeitos cardioprotetores induzidos por ingestão antecedente de etanol

Adaptado de Krenz M & Korthuis RJ, 2012

 

Além disso, o consumo regular de baixas doses de álcool também pode trazer benefícios à hipertensão e ao diabetes, pela diminuição do estresse oxidativo, aumento da sensibilidade a insulina e efeito vasodilatador endotelial. Apesar desses mecanismos ainda não serem claros, verificou-se associação com a diminuição da pressão arterial e com a redução do risco de desenvolvimento de diabetes tipo II. Novos achados experimentais ainda sugerem que o uso leve a moderado de álcool aumenta a neovascularização e melhora a resposta capilar em tecidos isquêmicos de ratos diabéticos - resultados que poderão orientar pesquisas futuras nesta área.

Em resumo, este artigo de revisão aponta evidências de que a exposição prévia ao álcool em níveis leves a moderados pode ter efeitos protetores cardiovasculares. A investigação e sinalização das vias envolvidas na ingestão de álcool podem ajudar no desenvolvimento de terapêutica adequada que maximizaria o seu efeito cardioprotetor (na tentativa de evitar os prejuízos das lesões de isquemia e reperfusão) e minimizaria os seus efeitos negativos (psicossociais e patológicos).

 

¹ Uma dose-padrão de bebida alcoólica (350 ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 50 ml de destilado) contém, aproximadamente, 10-14 g de álcool puro.

Additional Info

  • Autor(es): Maike Krenz, Ronald J. Korthuis
  • Fator de impacto da revista: 5.166
  • D.O.I.: 10.1016/j.yjmcc.2011.10.011
  • Título(s) original(is): Moderate ethanol ingestion and cardiovascular protection: From epidemiologic associations to cellular mechanisms
  • Fonte:

    Journal of Molecular and Cellular Cardiology: 52 (2012) 93-104

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