Entrevista com o Dr. Wang Yuan Pang

2 março, 2020

A publicação "Álcool e a Saúde dos Brasileiros - Panorama 2020" traz, além dos dados mais recentes sobre o impacto do uso de álcool na saúde da população do Brasil, um mapeamento inédito da produção científica brasileira sobre o tema, no período de 1990 até 2018.

Chamado de Panorama Científico, o estudo mostrou que, embora a produção científica no Brasil tenha crescido substancialmente entre os anos analisados, ainda há uma carência de estudos sobre certos temas relevantes como a prevenção ao uso de álcool e a avaliação de intervenções e programas de saúde pública na área. Essa lacuna evidenciada pelo estudo deixa clara a janela aberta aos pesquisadores para a produção de trabalhos consistentes nessas áreas.

 

1. Qual foi o maior desafio na realização do Panorama Científico?

O Panorama Científico atualiza os tópicos mais relevantes sobre a questão de consumo de álcool no Brasil.  Nesta perspectiva, a identificação de novos fenômenos associados ao consumo de álcool e as lacunas científicas investigadas de forma insuficiente foram os maiores desafios.

 

2. Qual a importância desse levantamento?

Pela primeira vez, publica-se um artigo científico voltado em quantificar a produção brasileira sobre o tema de alcoolismo.  A metodologia de busca sistematizada e análise bibliométrica foram os principais avanços científicos.  Os resultados auxiliam a avaliar o cenário científico sobre o consumo de álcool, bem como as direções futuras. 

 

3. Os resultados surpreenderam de alguma forma?

Sim.  Primeiro, a maioria dos estudos publicados eram descritivos, isto é, calculam apenas a frequência de consumo de álcool e as suas consequências em subgrupos específicos.  Contudo, não permitem maiores inferências sobre as ações de intervenção e prevenção.  Segundo, e o mais surpreendente, as políticas e programas sobre o consumo de álcool no nosso país possuem pouca ou nenhuma evidência de efetividade.  A adoção de um programa sem comprovação de benefício para a comunidade pode prejudicar a saúde da população como um todo, além de constituir uma enorme despesa para o erário público.

 

4. Com base nos resultados, como avalia a pesquisa científica nacional sobre álcool?

Temos pesquisas adequadas com boa visibilidade científica, feitas por pesquisadores nacionais.  Os indicadores bibliométricos mostram que a produção brasileira é crescente, ano após ano, principalmente na última década.  Contudo, as colaborações internacionais ainda são escassas.  A maior parte dos estudos simplesmente descrevem o cenário de consumo de álcool no Brasil.  Somente 10% das pesquisas se dedicaram a evidenciar os efeitos de uma intervenção ou programas de saúde pública.  Os cientistas devem responder com suas pesquisas sobre as melhores ações para enfrentar o crescimento do consumo de álcool no Brasil.

 

5. Quais são os principais avanços e desafios?

O principal avanço é a avaliação abrangente e sistematizada da produção científica brasileira sobre o consumo de álcool entre 1990 - 2018.  O ineditismo deste artigo se equipara a uma reflexão crítica para que os cientistas brasileiros olhem para o que estão fazendo, o que falta fazer e para onde podem progredir. 

Os desafios futuros são: (1) mudar o foco dos trabalhos descritivos para realizar trabalhos que comprovem os benefícios de ações e programas de saúde pública;  (2) esta proposta deve ser endossada e alavancada por lideranças acadêmicas que são formadores de opinião, para que seja fortalecida a capacidade de produção científica (capacity building); (3) disseminar os resultados já obtidos para as autoridades e as partes interessadas (indivíduo, família e a sociedade), estabelecendo o financiamento público de ações que possuem o potencial de reverter ou controlar o crescente fenômeno de consumo de álcool e as suas consequências negativas. 

 

Additional Info

  • Fonte:

    Wang Yuan Pang, graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina do Universidade de São Paulo (FMUSP), Mestrado e Doutorado em Psiquiatria pela FMUSP.

    É médico assistente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e pertence ao corpo de pesquisadores do Núcleo de Epidemiologia Psiquiátrica (NEP) na FMUSP.   

    Atua como pesquisador senior do Laboratório de Investigações Médicas de Psicopatologia e Terapêutica Psiquiátrica (LIM-23) da FMUSP. É orientador pleno de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Participa como um membro da Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa CAPPESQ da diretoria Clínica do Hospital das Clínicas da FMUSP.  

    Colabora com o projeto Global Burden of Diseases (GBD) e o conselho científico do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA).

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