Álcool e Sistema Cardiovascular

1 julho, 2004

Nos últimos 30 anos estudos científicos indicaram que o uso moderado de álcool reduz a incidência de doenças coronarianas, em especial de enfartes do miocárdio.

Nos últimos 30 anos estudos científicos indicaram que o uso moderado de álcool reduz a incidência de doenças coronarianas, em especial de enfartes do miocárdio (1,2,5).

Estes resultados levaram a uma série de investigações para descobrir se o álcool era de fato o elemento responsável pela prevenção de problemas cardíacos ou se a baixa incidência de problemas cardíacos estava relacionada ao estilo de vida do indivíduo, em especial ao seu tipo de alimentação e ao fato do indivíduo praticar exercícios físicos (1).

Atualmente sabe-se que o consumo de 1 a 4 doses diárias de álcool pode reduzir significativamente o risco de doenças coronarianas (3,4) e o consumo de 5 ou mais doses diárias pode aumentar seus riscos (4,5). Através de uma meta-análise (sistemática revisão da literatura científica que combina diferentes estudos para se chegar a um resultado único), Rimm e outros (1999) concluíram que (1):

. O consumo de até aproximadamente 30g/dia (aproximadamente duas doses diárias de álcool), aumenta em até 4,0 mg/Dl (4 miligramas por decilitro) o nível do colesterol ligado a proteínas de alta densidade (HDL), considerado o bom colesterol. O HDL é responsável pela remoção do colesterol ligado a lipoproteínas de baixa densidade (LDL), o que previne a ocorrência de aterosclerose.
. O consumo de até aproximadamente 30g/dia de álcool diminui os níveis de fibrinogênio em até 7.5 mg/Dl. O fibrinogênio, que está associado ao processo de coagulação e formação de trombos, leva a uma redução do risco de problemas coronarianos em até 12,5%.
. O consumo de até aproximadamente 30g/dia de álcool aumenta os níveis de triglicérides em até 5,7%, o que pode ser traduzido em um risco de até 4,6% de complicações coronarianas. No entanto, quando este índice é considerado conjuntamente com o aumento do nível do colesterol HDL e a diminuição dos níveis de fibrinogênio, há ainda 27,5% de redução no risco do indivíduo vir a desenvolver doença coronariana.

Quanto aos efeitos maléficos do álcool, Walsh e outros em um estudo epidemiológico 5 de 2002 concluíram que altas doses de álcool (5 ou mais doses/dia) podem levar ao comprometimento do ventrículo esquerdo do coração. Problemas no ventrículo esquerdo podem levar à cardiomiopatia dilatada (4,6), sendo que nos Estados Unidos o uso excessivo de álcool é considerado o principal fator para a ocorrência de cardiomiopatia (5).

Apesar da cardiomiopatia ter diversas causas, inclusive um componente genético, ela esta associada a mais de 30% dos casos de alcoolismo, ocorrendo tipicamente em homens entre 30 e 55 anos que consomem mais de 5 doses diárias de álcool por mais de 10 anos (4).

A abstinência ou diminuição do álcool pode levar a uma melhora da cardiomiopatia ?

Nicolas, J.M e outros (2002), (6) acompanharam por 4 anos indivíduos com cardiomiopatia que consumiam 100 g de álcool/dia por mais de 10 anos. O estudo teve como objetivo verificar se a abstinência ou a diminuição do consumo diário de álcool levaria a uma melhora no quadro da doença.

Após o primeiro ano, todos os pacientes que pararam de beber apresentaram melhora significativa na função do ventrículo esquerdo do coração. O mesmo ocorreu com os pacientes que diminuíram o consumo para 20-60 gramas/dia. Em contraste, houve uma deterioração no ventrículo esquerdo de pacientes que continuaram consumindo mais de 80g álcool/dia. Depois de 4 anos de estudo, tanto os indivíduos que pararam de beber quanto os que continuaram bebendo moderadamente continuaram apresentando melhoras nas funções do ventrículo esquerdo e 10 pacientes que continuaram bebendo mais de 80g/ dia morreram durante o estudo.


Comparação entre coração normal e coração com cardiomiopatia dilatada
Alcohol Health & Research World, Vol. 14, No. 4, 1990.

Additional Info

  • Referências:

    1. Mukamal, J.K. & Rimm, E.B. (2001). Alcohols Effects on the Risk for Coronary Heart Disease. Alcohol Research and Health: Journal of the National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, 25, 255-261
    2. Romelsjö, A., Branting, M., Hallqvist, J., Alfredsson, L., Hammar, N., Leifman, A., & Ahlbom,A. (2003). Abstention, alcohol use and risk of myocardial infarction in men and women taking account of social support and working conditions: the SHEEP case-control study. Addiction, 98, 1453. (http://www.addictionjournal.org/)
    3. Frequency of Light-to-Moderate Drinking Reduces Heart Disease Risk in Men (2003). National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism News Releases
    4. State of the Science Report on the Effects of Moderate Drinking (2003). National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism
    5. Walsh, CR e outros (2002). Alcohol consumption and risk for congestive heart failure in the Framingham heart study. Annals of Internal Medicine, 136, 181-191. 
    6. Nicolas e outros (2002). The Effect of Controlled Drinking in Alcoholic Cardiomyopathy. Annals of Internal Medicine, 136, 192-200

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