Por que os jovens bebem? Por que não deveriam beber?

25 setembro, 2015

Quanto mais cedo se inicia o consumo, maiores as chances de desenvolver problemas relacionados ao uso de álcool na idade adulta.

O álcool é a substância psicoativa mais consumida entre os adolescentes1 - isto vem acontecendo cada vez mais cedo, com maior frequência e quantidade. Você já se perguntou por que isso acontece e quais as consequências?

Primeiramente, vamos aos números:

  • Aproximadamente 50% dos jovens com idade entre 12 e 17 anos já fizeram uso de álcool na vida2;
  • A idade de experimentação e de início do uso regular do álcool ocorre aos 14 e 15 anos, respectivamente3;
  • Entre estudantes de 13 a 15 anos de idade, 54,3% já experimentaram alguma bebida alcoólica e 21% já tiveram algum episódio de embriaguez na vida4;
  • De 2006 para 2012, houve crescimento expressivo de meninas que consomem 5 ou mais doses* (de 11% para 20%) e diminuição na proporção de meninos que bebem neste padrão (de 31% para 24%)5, também conhecido como beber pesado episódico (BPE)**.

Mas... por que os jovens bebem?

Os adolescentes vivenciam intensas mudanças físicas, psicológicas e sociais, passando por uma fase que associa-se não apenas à experimentação de álcool, mas ao beber “perigosamente”. Dentre os diversos fatores, podemos citar6:

  • Comportamento de assumir riscos e testar limites: a tendência de procurar situações novas e potencialmente perigosas, em geral de forma impulsiva, típica dos adolescentes, pode incluir experiências com álcool;
  • Expectativas: a forma como veem o álcool e seus efeitos influencia o comportamento de beber. Adolescentes que bebem para ter uma experiência positiva/agradável (por exemplo, ficar mais comunicativo, ter mais sucesso na busca de parceiros, divertir-se mais) são mais propensos ao consumo;
  • Traços da personalidade ou transtornos psiquiátricos: algumas características podem torná-los mais propensos à começar a beber, como agressividade, rebeldia, dificuldade em seguir regras, problemas de conduta, hiperatividade, ansiedade ou depressão;
  • Fatores hereditários: o risco de desenvolver problemas com o álcool é diretamente influenciado pela genética;
  • Aceitação por amigos e pelo grupo: fazem parte dos fatores ambientais que podem influenciar no desenvolvimento do hábito de beber, assim como a referência de pais e familiares.
     

E por que os jovens não deveriam beber?7,8

Independentemente do motivo que tenha levado o jovem a começar a beber, é importante que saibam que estão sujeitos a uma série de riscos potenciais. O consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes compromete o sistema nervoso central (SNC) que ainda encontra-se em desenvolvimento. Desta maneira, suas vias neuronais podem se tornar mais suscetíveis aos danos causados pelo álcool, podendo levar ao comprometimento de várias funções. Ainda, quanto mais precoce o início do beber, mais cedo a pessoa poderá ter problemas com o álcool: estudos mostram que indivíduos que começaram a beber antes dos 15 anos têm 4 vezes mais chance de desenvolver problemas relacionados ao uso de álcool do que aqueles que começam a beber após os 21 anos9. Além disso, para a vida adulta, o uso de álcool na adolescência é associado a maior consumo e abuso de outras drogas e mais comportamentos impulsivos.

Sob os efeitos do álcool, os jovens ficam mais propensos a comportamentos de risco – incluindo brigas, sexo desprotegido ou não consensual, acidentes automobilísticos, entre outros. Em casos graves, os jovens podem apresentar outras consequências negativas decorrentes do uso de álcool, como não cumprir obrigações importantes e até ter problemas legais, sociais ou interpessoais.

O que podemos fazer?

As crianças pensam sobre as coisas muito mais cedo do que imaginamos; portanto, nunca é cedo demais para tratar deste tema. Vale lembrar que o que os adultos fazem é tão importante quanto o que falam: crianças e adolescentes ouvem o que você diz, mas também observam o que você faz10:

  • Comece a falar sobre o álcool naturalmente, do modo mais simples possível;
  • Não use tom autoritário e evite sermões;
  • Seja claro e conciso, explique os fatos associados ao uso de álcool e suas consequências;
  • Mostre apoio e seja amável, deixe o caminho aberto para o diálogo;
  • Estabeleça limites;
  • Tenha atitudes condizentes com o que você fala, pois seu comportamento servirá de exemplo para os mais jovens: faça escolhas saudáveis.

Como medida importante de avanço na prevenção do uso precoce do álcool no Brasil, em março de 2015 foi sancionada a Lei nº 13.106/2015 que criminaliza a oferta – este termo abrange vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, mesmo que gratuitamente – de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos.

Para saber mais dicas, acesse os materiais CISA: livreto e vídeo "Como falar sobre uso de álcool com seus filhos".

*A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece que uma unidade de bebida ou dose padrão contém aproximadamente de 10 g a 12 g de álcool puro, o equivalente a uma lata de cerveja (330 ml) ou uma dose de destilados (30 ml) ou ainda a uma taça de vinho (100 ml).

** BPE é o padrão de consumo que expõe o indivíduo a um maior perfil de risco para danos sociais e de saúde, como prejuízos nas atividades acadêmicas e laborais, envolvimento em relações sexuais desprotegidas ou não consensuais, brigas e violência, acidentes automotivos, além de risco para uso de outras drogas.

Additional Info

  • Referencias:

    1 Squeglia LM, Tapert SF, Sullivan EV, Jacobus J, Meloy MJ, Rohlfing T, Pfefferbaum A. Brain development in heavy-drinking adolescents. Am J Psychiatry. 2015 Jun;172(6):531-42.
    2 Carlini, EA, et al. II Levantamento Domiciliar sobre o uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: estudo envolvendo as 108 maiores cidades do país – 2005. São Paulo: CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, Departamento de Psicobiologia, UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo, 2007.
    3. Laranjeira R, et al. I Levantamento Nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira. Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas, 2007.
    4. BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar: PeNSE 2015. Rio de Janeiro, 2016.
    5. Laranjeira R, et al. II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) – 2012. São Paulo: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas de Álcool e Outras Drogas (INPAD), UNIFESP. 2014.
    6. National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism – NIAAA, 2006. Why do adolescents drink, what are the risks, and how can underage drinking be prevented?
    7. Irons DE, Iacono WG, McGue M. Tests of the effects of adolescent early alcohol exposures on adult outcomes. Addiction, 2015 Feb;110(2):269-78
    8. Substance Abuse and Mental Health Services Administration – SAMHSA, 2014. Underage Drinking.
    9. National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism – NIAAA, 2017. Underage Drinking.
    10. Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA. “Como falar sobre uso de álcool com seus filhos”.

  • Autor(es): Emmanuel Kuntsche, Ronald Knibbe, Gerhard Gmel e Rutger Engels
  • Fator de impacto da revista: 1.581
  • D.O.I.: http://dx.doi.org/10.1016/j.addbeh.2005.12.028
  • Título(s) original(is): Who drinks and why? A review of socio-demographic, personality, and contextual issues behind the drinking motives in young people
  • Fonte:

    Addictive Behaviors 31, 1844-1857, 2006

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