Álcool e doenças cardiovasculares: o que sabemos até hoje?

4 outubro, 2016

Revisão de estudos aponta os principais riscos e potenciais benefícios do consumo de álcool em doenças cardiovasculares.

No tema “álcool e saúde”, poucos tópicos têm gerado tanta curiosidade e controvérsia quanto a relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e doenças cardiovasculares (DCVs). Ainda não há conclusões definitivas sobre esta questão, pois é muito complexa, sendo necessário considerar as diferenças individuais dos efeitos do álcool, particularidades de cada DCV e os padrões de consumo*.

Relatos clínicos já mostraram que o uso pesado de álcool está associado à arritmia cardíaca, principalmente a fibrilação atrial. Curiosamente, as arritmias foram detectadas em indivíduos usualmente saudáveis do ponto de vista cardíaco, indicando que o álcool provoca alterações no sistema de condução elétrica do coração. Observou-se que o consumo leve a moderado não parece estar relacionado a tais arritmias, e que a abstinência reverte esse quadro.

Um artigo publicado no Journal of Internal Medicine traz uma revisão crítica de estudos anteriores, analisando o que podemos concluir hoje e olhar para futuras pesquisas. A relação de cada DCV com o consumo de álcool foi revisada separadamente, com destaque para cardiomiopatia alcoólica (CMA), hipertensão arterial sistêmica (HAS), doença arterial coronariana (DAC) e acidente vascular cerebral (AVC).

A CMA relaciona-se a um conjunto heterogêneo de condições capazes de prejudicar o músculo do coração, incluindo o consumo pesado e continuado de álcool. Nos últimos 60 anos foram acumuladas evidências que embasam o mecanismo de toxicidade direta do álcool no músculo cardíaco. Entretanto, ressalta-se que, uma vez instalada a doença, o coração encontra-se patologicamente dilatado e não é possível diferenciar com precisão se a causa foi a ingestão de álcool ou a ação de outros agentes, como por exemplo fatores genéticos ou processos autoimunes. Esta indefinição dificulta que pesquisas evidenciem a real frequência da CMA. Um estudo espanhol apontou que esta doença é relacionada ao consumo pesado e crônico de álcool (pelo menos 120 g por dia ao longo de 20 anos). Ao cessar ou diminuir significativamente o consumo, os sintomas podem melhorar, mas não em todos os casos.

A HAS é uma doença crônica e frequente, que se não for prevenida e tratada, pode causar lesões em artérias e órgãos vitais, como coração, cérebro e rins. Apesar da relação da HAS com o uso de álcool ter sido notada há 100 anos, somente em 1970 evidências foram capazes de confirmá-la, independente do sexo e de outros potenciais fatores de confusão (como etnia, ingestão de sódio, percentual de gordura ou tabagismo). Os estudos ainda não são conclusivos quanto às variações da pressão arterial relacionadas ao consumo leve/moderado de álcool; porém, para indivíduos que consomem 6 ou mais doses por dia a prevalência de HAS equivale ao dobro da observada em abstêmios e consumidores leves, sendo possível observar redução da pressão arterial após uma semana de abstinência. Além disso, evidências também apontam que o consumo de álcool pode reduzir o efeito de medicamentos para HAS, e que a redução deste consumo pode exercer papel semelhante ou maior na HAS que a perda de peso, atividade física e redução na ingestão de sal. O mecanismo implicado nesta relação ainda não foi esclarecido, mas observa-se que o tipo de bebida, seja cerveja, vinho ou destilado, não interfere consideravelmente, provavelmente sendo devido ao próprio etanol.

Dentre as DCVs, a DAC é responsável pela maior parte de adoecimentos e mortes. Manifestações clínicas desta doença incluem angina (dor no peito), infarto e morte súbita. Diversos estudos mostram redução no risco de DAC com a ingestão leve/moderada de álcool. Possíveis mecanismos implicados são o aumento do HDL (fração do colesterol capaz de prevenir o efeito prejudicial nas artérias) e as propriedades anticoagulantes do álcool. Ainda, parece haver também a redução no risco de diabetes melitus tipo 2 com o uso leve/moderado, e efeitos favoráveis no metabolismo de glicose e insulina. Diferentes tipos de bebida alcoólica conferem maior proteção cardiovascular; porém, estudos em franceses apontam que particularmente os vinhos tintos seriam benéficos. A potencial ação de componentes fenólicos deste tipo de vinho não está bem estabelecida em humanos. Entretanto, considera-se também que o padrão de consumo de álcool associado à redução no risco coronariano (consumo diário ou quase diário de 1 a 2 doses, junto com refeições, evitando episódios de consumo pesado) é mais comumente encontrado entre bebedores de vinho.

A relação entre o consumo de álcool e o risco para AVC é mais complexa e não completamente esclarecida. Em linhas gerais, há evidências de que ocorre redução neste risco com o consumo leve/moderado de bebidas alcoólicas, e inversão desta relação na medida em que o consumo se intensifica, mas existem particularidades. O AVC hemorrágico (no qual ocorre rompimento de vaso sanguíneo) parece ocorrer com mais facilidade em bebedores pesados, pelas propriedades anticoagulantes do álcool. Além disso, a elevação da pressão arterial pelo consumo de álcool parece mediar o aumento no risco para os dois tipos de AVC, tanto o hemorrágico quanto o isquêmico (no qual há o entupimento de vaso sanguíneo).

Os estudos sobre a relação entre o uso de álcool e DCVs suportam achados consistentes, embora ainda apresentem algumas limitações importantes, como a falta de comprovação de relação causa-efeito. Como alvos para pesquisas futuras, os autores sugerem a busca por fatores genéticos envolvidos, efeitos específicos de diferentes tipos de bebidas, e aspectos de interação entre álcool e medicamentos, muitas vezes utilizados por indivíduos com DCVs.

*Este estudo define consumo leve/moderado de álcool a ingestão de menos que 3 doses por dia, e como consumo pesado ao menos 3 doses diárias. Uma dose padrão contém aproximadamente de 10 g a 12 g de álcool puro, o equivalente a uma lata de cerveja (330 ml) ou uma dose de destilados (30 ml) ou uma taça de vinho (100 ml).

Additional Info

  • Autor(es): Klatsy, A. L.
  • Fator de impacto da revista: 6.06
  • D.O.I.: 10.1111/joim.12390
  • Título(s) original(is): Alcohol and cardiovascular diseases: where do we stand today?
  • Fonte:

    Journal of Internal Medicine 2015 Set;278(3):238-50

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