Por décadas, o álcool foi a principal substância recreativa da cultura ocidental, e a maconha, uma alternativa de menor expressão. Esse quadro está mudando em alguns lugares. Levantamentos populacionais nos Estados Unidos mostram que o uso intenso de cannabis cresceu rápido, enquanto o consumo frequente de álcool recuou. O movimento interessa à saúde pública, mas não cabe transpô-lo de forma automática para a realidade brasileira.
O que mudou nos Estados Unidos
A análise mais influente sobre o tema foi publicada por Jonathan Caulkins, da Carnegie Mellon University, na revista Addiction¹. Reunindo dados de 27 edições da principal pesquisa domiciliar norte-americana sobre uso de substâncias, com mais de 1,6 milhão de participantes entre 1979 e 2022, o autor encontrou uma mudança expressiva. Em 1992, havia cerca de dez vezes mais pessoas bebendo álcool diariamente ou quase todos os dias (8,9 milhões) do que usando maconha com essa frequência (menos de 1 milhão). Em 2022, pela primeira vez, o quadro se inverteu: 17,7 milhões de pessoas relataram uso diário ou quase diário de maconha, contra 14,7 milhões de bebedores na mesma frequência.
A intensidade do consumo mostra outra diferença. Muito mais gente bebe do que usa cannabis, mas o consumo em alto volume é menos comum entre quem bebe. Cerca de 40% dos usuários atuais de maconha relatam uso diário ou quase diário, um padrão mais próximo do tabaco do que do álcool. Caulkins observa ainda que essas tendências acompanham as mudanças na política sobre drogas: o uso de cannabis caiu nos períodos de maior restrição e cresceu nas fases de liberalização, processo que se acelerou com a legalização recreativa em vários estados.
A hipótese da substituição e seus limites
Parte desse movimento costuma ser lida como substituição: a ideia de que algumas pessoas estariam trocando o álcool pela cannabis, fenômeno popularizado pela expressão “California sober” (sóbrio à moda californiana, ou seja, abstêmio de álcool, mas usuário de maconha). Até pouco tempo atrás, essa hipótese se apoiava sobretudo em pesquisas observacionais e em relatos pessoais.
Em 2025, um ensaio clínico da Brown University, publicado no American Journal of Psychiatry², trouxe a primeira evidência experimental sobre o tema. Em um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, 157 adultos que faziam uso intenso de álcool e usavam cannabis ao menos duas vezes por semana foram avaliados em um ambiente de laboratório que simulava um bar. Após fumar cannabis com THC ativo, os participantes consumiram entre 19% e 27% menos álcool do que após o placebo, além de relatarem menor vontade de beber e de demorarem mais para tomar o primeiro gole.
Os próprios autores, porém, pedem cautela. O efeito é agudo, de curtíssimo prazo e medido em laboratório; não prova que a cannabis seja tratamento seguro para problemas com álcool. Não há, hoje, qualquer recomendação de usar maconha para beber menos. A cannabis tem riscos próprios, incluindo dependência, e boa parte de quem tem transtorno por uso de cannabis também preenche critérios para transtorno por uso de álcool. Trocar uma substância pela outra não é, portanto, uma solução sem danos.
O Brasil na contramão
Enquanto nos Estados Unidos o consumo frequente de álcool recua, o Brasil segue outro caminho, e ele preocupa. O país acompanha a tendência mundial de queda no consumo per capita de bebidas alcoólicas, mas o consumo abusivo continua subindo. Segundo o sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, a prevalência de Beber Pesado Episódico (BPE), quatro ou mais doses em uma ocasião para mulheres e cinco ou mais para homens, subiu de 15,7% em 2006 para 20,4% em 2024 nas capitais brasileiras.
O crescimento não é uniforme. Entre os homens, o consumo abusivo ficou alto e relativamente estável, em torno de 25% a 27%. A maior mudança veio das mulheres: a prevalência quase dobrou em duas décadas, de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023, com peso especial entre as mais jovens. O aumento se concentra também nas faixas etárias jovens e entre pessoas de maior escolaridade. Ou seja, o problema não está restrito a grupos específicos ou socialmente mais vulneráveis.
Por que essa diferença importa
A visão dos dois cenários ajuda a evitar comparações indevidas. A ideia de que “uma nova geração bebe menos”, embora amparada por dados de pesquisas recentes no Brasil, deve ser tratada com cautela. Aqui, o álcool ainda é a substância psicoativa que mais causa danos, ligada a doenças crônicas, acidentes de trânsito, violência e mortes evitáveis. E o uso abusivo, que é o padrão mais preocupante, cresce entre alguns grupos populacionais, apesar da queda do consumo geral.
O contexto regulatório e cultural também difere. Nos Estados Unidos, a expansão da cannabis ocorre em meio à legalização e a um debate intenso sobre danos comparativos. No Brasil, o álcool faz parte da sociabilidade e das festas, e é cercado de baixa percepção de risco. Esse enraizamento cultural ajuda a entender por que o consumo abusivo resiste, e cresce, mesmo com a queda no volume médio consumido.
O que fazer com essas informações
O primeiro passo é não tratar o álcool como um problema “em retração”. Os dados brasileiros mostram o contrário e pedem atenção constante. Monitorar o padrão de consumo, e não só a quantidade média, faz diferença: o Beber Pesado Episódico concentra boa parte dos danos agudos, mesmo entre quem não bebe todos os dias.
Também é preciso olhar para públicos pouco visados pelas campanhas, como mulheres e adultos de maior escolaridade, entre os quais o consumo abusivo vem subindo. As mensagens de prevenção têm de alcançar esses grupos sem reforçar estigmas que afastam as pessoas do cuidado.
Por fim, os achados internacionais sobre cannabis e álcool merecem leitura cuidadosa. Eles apontam mecanismos relevantes e devem ser acompanhados pela ciência, mas não autorizam soluções simplistas. No Brasil, a prioridade continua a mesma: enfrentar o consumo abusivo de álcool com políticas baseadas em evidências, já que é essa a substância que mais pesa sobre a saúde da população.
Em síntese:
- Nos Estados Unidos, o uso diário ou quase diário de maconha superou, pela primeira vez, o de álcool (17,7 milhões contra 14,7 milhões em 2022), em meio a um recuo do consumo frequente de bebidas;
- Um ensaio clínico recente sugere que a cannabis pode reduzir o consumo de álcool no curtíssimo prazo, mas os autores alertam que isso não a torna um tratamento seguro nem uma substituição isenta de riscos;
- No Brasil, o consumo abusivo de álcool (Beber Pesado Episódico) seguiu em alta, passando de 15,7% (2006) para 20,4% (2024), com crescimento expressivo entre mulheres e jovens;
- O álcool permanece a substância psicoativa que mais adoece e mata no país, por isso, as políticas de prevenção precisam focar no padrão de consumo, alcançar novos públicos e basear-se em evidências, sem soluções simplistas de substituição entre substâncias.







